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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O ciumoso

Demitri Túlio


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19/05/2007 01:27


QUINZE ANOS DEPOIS DO único rebento, engravidou. Estava buchuda e envergonhada de dizer as irmãs e andar na rua. Quarenta anos! Não se dava ao respeito. A família era dessas que futricava pelas costas. Ainda mais assim, inventar filho temporão. Virasse a esquina e o veneno, escorrido dos cantos da boca, carcomia o mosaico vermelho (de encerar aos sábados).

PRESEPAR DE TER MENINO àquela altura da vida? Cruz-credo! Enjoar de botar os bofes pra fora? Enguiar com o cheiro de panelada? Não poder, sequer, escovar os dentes! Tormento. Mais ainda para o marido. Infeliz. Acontecia que toda vez que a esposa embuchava, amargava um tempo de rejeito. Dos quatro meses em diante era escanteado. Abuso.

O JEITO ENVIEZADO DE ESPIAR a vida dos outros sempre foi cruento. Ora, como se depois de certa idade não se pudesse mais ter filhos! Não era bem assim, o negócio ainda havia pior. Na cabeça de mal amados e casados decadentes, fornicações, beijos na boca e língua no ouvido eram para os moços. Viçosos.

TIRANTE A LÍNGUA FERINA das almas sebosas e do acanhamento da prenhe, ela tinha de se preocupar na verdade com a gravidez. O doutor já havia alertado para o risco. Todo cuidado era pouco. O menino poderia nascer espartano, um touro. Porém nada garantia que criatura não viesse pelo avesso.

MAS CORREU TUDO DENTRO dos conformes, não fosse um ínfimo. O único filho do casal tomou-se de um ciúme abissal. Tão assim que foi preciso medicá-lo para largar o amuado. Fora os fricotes, alguns motivos tinham de ser levados em consideração. O menino reinou por 15 anos primaz. Era o centro das atenções e de repente se sentiu posto de canto.

ATÉ O AVÔ, COMPANHEIRO inseparável de jogar conversas fora e de assistir à Formiga Atômica estava derramado pelo caçula. Um horror para o adolescente. Um dia, em uma saco do Mercantil do Jumbo, juntou algumas roupas e inventou de ir embora. Foi resgatado na esquina, aos berros. O caso estava entre patológico e a frescura.

POR MAIS QUE OS PAIS dissessem o contrário, sentia-se refugado. Não tolerava sequer passar no corredor, onde ficava o quarto do irmão mais novo. Entupia os ouvidos com os dedos para não escutar o chororô do bruguelo e tinha chiliques quando as visitas chegavam para pajear a cria. Lambê-lo.

O CIUMOSO HAVIA FASTIOSO. E restou mais ainda quando viu, sem querer, a mãe amamentar o miúdo. Quase vomita o estômago. Um sentimento doloroso, fisgada esquisita e estranha sensação de infidelidade. Também foi rápida a reação silenciosa de vingança. Contra o irmãozinho.

CORREU À OFICINA DO PAI, um professor de química da Universidade Federal, e furtou frasco de veneno. Esperou a noite e a mãe se estropiar de fadiga e ferrar no sono. Com um pincel, pintou o bico dos seios dela. Agora, era aguardar um bocadinho mais.

NÃO DORMIU E PULOU da cama quando um grito da mãe rasgou o silêncio do começo da manhã. Estava feito. Riu-se contido e foi testemunhar. Sobre o ventre da mãe, o pai espumava. Talvez leite. Morto.


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