Demitri Túlio
12/05/2007 01:38

DADIVOSA NÃO ERA BEM a palavra. Benevolente, talvez. E muitos a condenavam pelo que fazia nas sextas-feiras da Paixão e nos 13 de Nossa Senhora de Fátima. Simples. Agradecimentos por ter trabalho em abundância, pedidos por felicidade de alguns, penitências e generosidades. Faltava tanto aos cotidianos alheios! Mas cria no tempo em que as delicadezas viriam augustas.
HAVIA SIDO MÃE SOLTEIRA. Bem três vezes. Mas nenhum rebento, nunca, lhe tirou o sono, nem fê-la encher os peitos por muito tempo. A avó sempre cuidou dos netos. E abuela nunca se disse sofrida com a peleja, nem cultivava motivos pra entrar no curral das vítimas. Das resmungonas e maldizentes. Os amanheceres jamais foram cravos nos ombros da velha.
VEZ EM QUANDO LARGAVA O trabalho, trocava a noite pelo dia e ia ver a mãe ser avó. Fazia gelo (da água do pote) em uma das cubas da geladeira verde (atração do bairro). Brincadeira pros netos, meninos e meninas da rua. Forma de não os perder de vista, de não os desgarrar. Havia os picolés açucarados (quadradinhos) de abacate, os de goiaba branca e os dindins de coco queimado e batata doce.
ERAM OS DIAS, TODOS OS MESES, que levava a dinheirama. Sustento dos três filhos-da-mãe e da velha. Proventos suficientes para se encher o bucho, divertir-se nos leilões das quermesses e não andar nu ou descalço. Estudavam até francês no Grupo Escolar, arrancavam dentes no INPS da Delmiro de Farias e recebiam frascos de Complexo B e Pantelmin.
ENTÃO, VIVIAM BEM NA MEDIDA do provável. Enquanto se mantivesse disposta e quisessem desfrutar dela, teriam o de comer. Era farta. Por agradecimento resolveu retribuir. Não era possível ter um corpo que lhe rendia tanto e deixar de agradecer ao Divino.
FOI POR ISSO QUE UM HOMEM acabou perdendo o arado inteiro de rosas. Queria saber apenas de esgotá-lo, de consumir a terra sem nada dar em troca. Estropiá-la. O roseiral, que encheu bolsos e bolsos, um dia foi invadido por mais beija-flores de que o esperado. Desmedido, uma nuvem deles. Pior, nunca mais retornaram. Nunca mais houve flor.
BOM, NAS SEXTAS-FEIRAS SANTAS e 13 de Fátima, pegava o rumo do presídio e ia. O pior deles, o mais abandonado por politiqueiros e familiares. Lugar tanto de bandidos assassinos e ladrões de galinha, descuidistas e outras tralhas. Fedorento, nauseante, improvável.
IA E DAVA PRAZERES E REGOJIZOS. A preço zero, nada. Faziam filas e eram felizes. Carinhosos e atenciosos. Banhavam-se antes, aparavam as barbas, cortavam as unhas e se perfumavam de perfume barato. Serviam-lhe água tratada, ofereciam cigarros. Escreviam bilhetes mal escritos, mas cheios do que havia de terno e sonhante. Nas paredes da cadeia, corações flechados. Cheios de sentimentalidades com o nome dela. Uma ceia, a promessa. Caridade compreendida até por Hélder - o bispo.