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Das Antigas

DAS ANTIGAS

A irmã

Demitri Túlio


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05/05/2007 00:51


FAMÍLIA É UMA DAS COISAS mais maravilhosas e, ao mesmo tempo, mais esquisitas que já se inventou. Não há, nesse momento, quem esteja lendo esse texto e não tenha pelo menos uma história extremada pra contar. Falo de enredos além das contas. Beirais do improvável, de deixar-nos boquiabertos, estatalados, excitados, arregalados...

VOU FIAR O PRIMEIRO. Tudo verdade. Casaram-se igreja, arroz e juras num templo presbiteriano. Nascidos um para o outro. Grudentos de primeiras núpcias e mel. Quando noivos, empestavam de inveja a rua. O bairro. O despeito corria pelas coxias. Quem não vivia como os dois periquitos, bebericando-se por qualquer bobice, pegou coceira de aperreio. Escabiol. Incomodavam-se com o idílio exagerado.

OS DIAS CORRIAM ASSIM, casinha de boneca, olho no relógio pra atocaiar o marido e comidinha. Surpresas, telefonemas, calcinhas e sutiãs de presente. Não podiam encostar um no outro que a coisa perdia as estribeiras. Nem sonhavam em ter filhos. Estava nos planos aproveitarem até a última gota. Lá pelos 25 (ele e ela nasceram no mesmo dia, mês e ano. Coincidência chata!) conceberiam.

TINHAM TAMBÉM NA CABEÇA o juízo de que parentes, quanto mais distantes deles melhor. A começar por pai e mãe. No máximo participariam de almoços aos domingos e um ou outro aniversário chato. Nada de entrançados na semanas, fofocadas e disse-me-disse. Não estavam trancados para o mundo, não. Mas Roma era apenas deles.

UM DIA, PORÉM, POR MOTIVO de doença, aceitaram receber a irmã da mulher como hóspede passageira. Moléstia que não era tão grave mas inspirava recolhimento. O marido concordou. No entanto, pediu que corresse com moçoila dali tão logo o sangue corasse os olhos. Foi ficando, foi ficando. Nas ausências do esposo fazia companhia a irmã.

O MARIDO, DE TANTO RECLAMAR, mudou das idéias no dia em que, sem querer (sem querer, mesmo), flagrou a cunhada se depilando para ir à praia. Dezoito anos. Branca, seios mangas-rosadas, unhas pintadas no preto e cabelos encaracolados. Uma mosca em um copo de leite. Fez o que pôde e o que não pôde, mas noite daquelas se rendeu.

DESCOBRIRAM. A FAMÍLIA quase implodiu em mágoas, traições e roupas sujas. Rachou e enfartou a sogra da banda do adúltero. O velho, pai da safada, desceu-lhe o relho e comprou passagem sem volta para São Paulo. Parentes que haviam migrado há tempos. Foi como a água sentou na cacimba baldeada.

BEM, NÃO SE ENGANE. Histórias não comportam finais. O The End é apenas um acidente. A moça, depois de dez anos, voltou. O casal, mais apaixonado do que nunca, agora com filhos, resolvera enterrar as cacas. Inclusive receberam a cunhada, normalmente, para almoços e tardes de conversa fiada. A irmã mais nova, por sinal, tatuara perto da nuca o nome da irmã mais velha.

BOM, NOITE DAQUELAS, a sede secou a língua do marido. Haviam bebido. Todos. E a irmã acabou ficando para dormir. Resolveu ir à cozinha e na ida, algo atiçou as lembranças. Tentações. Talvez a porta entreaberta ou o rasgo de luz donde pernoitava a cunhada. Quis não ir, não ir. Foi. Estavam lá, siamesas. Beijos onde não havia bocas. Antropofágicas, irmãs. Emudeceu.


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