Demitri Túlio
28/04/2007 01:58

Ah! Se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Ah! Se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde ainda posso ir
Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornastes nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Teu paletó enlaça o meu vestido
E o teu sapato ainda pisa o meu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Meus seios ainda estão em tuas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir...
FIZERAM UM TRATO. Estavam por uma peinha de nada. Um fiapo de relacionamento, nesga. Já não se falavam tanto, já não sonhavam juntos e a televisão intermediava os silêncios. Restaram assim algum dia. Quando menos esperaram amanheceram outros. Nem ela andava mais nua no País dele, nem ele era mais o príncipe a cavalo-falante-inglês.
DORALINA, SESSENTA ANOS, e envergonhada de estar sentindo faltas. Do menino que lhe sorria por nada, dos telefonemas sem horas marcadas, dos bilhetinhos indizíveis. Saudades de, toda hora, ouvir dele que a amava do tamanho de todos os grilos da terra. Dos que viviam, dos que morreram e dos que ainda iriam nascer. De vê-lo humorado, mesmo quando havia tamarindos. De querê-la encostado nele.
A MENINA AINDA DESEJAVA ser surpreendida. Sentir-se brechada quando fosse fazer xixi ou abotoar as presilhas do sutiã. De canto de olhos, fazer-se de desapercebida e ir vestindo peça por peça pra depois ser despida...
FRANCISCO, SESSENTA E POUCOS tempos, também havia queixumes. Não era um bruto, nem deslembrado. Nem coisa que havia se transformado. Também se assustava com a mudez e não se envergonhava de sentir, talvez, como as adolescentes.
SENTIA FALTA DOS BEIJOS, de se perderem em juras e conversas infindas. De Mônicas e Cebolinhas. De planejarem o impossível e firmarem pactos de querer subir além do telhado. De se deitarem pernas encostadas, de rirem por besteiras ou fiar preguiças...
FIZERAM ASSIM, COMEÇARIAM pelos novembros. Tempo da flora dos ipês-amarelos, era mês. Daí sairiam pra ver as calçadas tomadas de amarelos e alguém ter pena, e sofrer, por ter de varrê-los. Também passeariam por aí, mãos dadas, pra catar bicos-de-latas em ninhais de benjamins ou tomar serenos. Retomariam dali...