Demitri Túlio
21/04/2007 00:49
CONTO ASSIM, A MAIORIA dos pais da rua onde eu morava eram futriqueiros e hipócritas. Preocupavam-se com as crias dos outros e terminavam fritando a própria língua. As filhas das fulanas eram as que não valiam vintém. Os filhos das beltranas, maledicentes. Daí, ter alguns meninos e meninas a que era vetada a convivência na esquina. Nada de se acompanhar com mal-ouvidos e dadivosas.
PENSO QUE A FOFOCA e a compulsão de matracar da vida alheia sempre termina num câncer. Que começa miúdo e infiltra-se como raízes de cipreste. Na Travessa Paris, na Maraponga, quase todas as mulheres pegaram a desgraça bem na garganta. Sintomático. E o mais grave: não morreram, definharam e viram seus maridos desaparecerem quando mais precisavam deles.
MAS É PORQUE REPARAVAM demais e suas bocas, e o que diziam, serviram apenas para fiar disse-me-disse. Havia daquelas que não dormiam. Espreitavam pra contar no relógio a quantas horas chegaria a rabudinha. Marcavam colado. Mal haviam completado 17 anos e já andavam com a cara pintada. Baton, biquara, rouge...
DAQUI A POUCO APARECERIA barriguda! Também, entrando e saindo de carro de homem! Marias Gasolinas. Boas coisas não estavam aprontando. Vai ver, nem moça era mais. Sair na boquinha da noite e chegar de manhã? Descabido. Filha dela era na rédea curta. E porque ainda comia de seu pirão, apanhava de tamancos.
FOI ASSIM QUANDO era pixota. A mãe e o pai revezavam-se na sentinela. Saísse da linha e o relho comia no lombo. Todos os irmãos fizeram primeira comunhão, todos iam pra missa aos domingos (às 8 ou às 18), todos se crismaram e todos, algum dia, já haviam lido a segunda leitura ou a oração dos fiéis. Exemplo de crianças!
MAS UMA DAS IRMÃS acabou embuchada. Uma vergonha! O pai pensou em arreglar as coisas e picar a mula do bairro. Vexame. Desceu a mão na baldeada e só não a fez casar, porque a lista dos safados era grande. Não pensou duas vezes e desterrou a bulinada pra São Paulo. Morada de uma irmã que migrou pra lá e virou evangélica, ex-fuampa. A prenhe terminou se amigando com marido da outra.
TAMBÉM TEVE UM IRMÃO que acabou cabeleireiro. Foi expulso de casa e apanhou de corda quando foi pego brincando de bonecas com as meninas. Corria o fuxico que andava de graça nas bicicletas do posto e ganhava Azedinhos, Pipers e Maluquinhas em demasia. Mas por ironia, foi a bicha que acabou sustentando o casal de velhos e os irmãos que deram pra nada.
NEM ASSIM, COM TANTO ENLEIO, a futriqueira segurava a língua. Falava dos outros e não havia medo de pisar no próprio rabo. Nem que o câncer na garganta a degustasse. A faladeira também casou, não era mais moça, e quando o marido morreu descobriu que não era única. O nojento tinha raparigas e filhos fora de outra banda.
A SURUCUCU PERDEU A voz, ficou viúva e encriquilhou as pernas miúdas. Mas toda tarde, com o olhar aperreado, pedia pra ser posta em uma cadeira na calçada. Passagem. Ainda refestelava-se. Espiava e aguçava a escuta. E grunhia quando o sereno vinha e tinham de retirá-la de lá.