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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Água de chocalho

Demitri Túlio


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24/03/2007 01:17


CONHECI UM FULANO QUE colhia palavras de tudo que havia. Eram possuídas de paladares, lápis de cores, desenhos, fortalezas e encantamentos. E por ser tão prenhe de vocábulos, ojerizava quem mandava os alheios calarem as matracas.

ORA, SILENTES, NÃO partejavam palavras. Assim, inférteis de dizer algo, findavam indefinidos. Dominados. Cabreiros e calangos. Homens e mulheres balançadores de cabeças. Aceitadores do relho e incapazes de fazer revoluções na esquina.

POR ISSO ODIAVA, MAIS ainda, quem ordenava pirralhos e pirralhas calar a boca, fechar o bico. Não dessem pio, enquanto o Senhor martelasse sermões. Pais, professores, padres e generais. Furtadores de palavras que ainda iam ser ditas.

ERAM ELES QUE ACOMODAVAM as palavras. Regravam significados e proibiam possibilidades. Valia o que diziam. E porque contra-argumentar era desimportante, o falar foi apodrecendo. Desmilinguindo-se. De repente, estavam todos, subalternos, grunhindo. Quem ia nascendo, bodejava.

POIS BEM, POR CASTIGO, obrigaram uma menina a espanar os cupins dos livros e prateleiras da biblioteca da escola. Aliás, só iam para o quartinho os abelhudos. Os que falavam além da cota diária. Desobedecessem, perdiam o recreio e eram enclausurados entre coleções.

CALVINO ERA UM VELHO (diziam) que assombrava a biblioteca. Metia medo na miudada que não fazia o dever ou que queria ter opinião (ou que pregava chiclete e meleca debaixo da carteira). Também estudante, tempos bem longe, foi fechado por lá. Esquecido (depois do berro da sineta), desapareceu no meio das estantes.

ATREVIDO REPETIA, LÍNGUA solta, que cala boca já havia morrido. Quem mandava na boca dele era ele. Era desses de catar palavras feito marisqueira. Da lama retirava ostras, enchia os sacos de búzios. Adorava empanturrar os bolsos de jiriquitis.

MEDO MESMO, ELA NÃO TEVE. Ainda mais porque nunca havia lido um livro de rir. Nem de sentir outros prazeres. Catecismos, taboadas, cartilhas. Moral e civismo, hinos e histórias de decorar. Estava farta. Foi o velho que pôs à mesa.

ENQUANTO FICOU PRESA foi lendo o que nunca lia. Danava-se pra ser castigada e, ao pé da orelha, cochichava com outras crias. Mais gente perdeu o recreio. Comédias, tragédias, quadrinhos, aventuras, filosofia. Um burburinho foi tomando conta dos alpendres e ganhou o grameal.

POR CAUSA DISSO choveu água de chocalho.


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