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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Pé-de-quê

Demitri Túlio


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17/03/2007 02:16


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NUNCA PERDEU UMA chuva. Admirava-se perguntar o porquê do pé molhar a água. Talvez por isso, durou tanto. Enxergava as coisas pelos olhos da cabra-cega. Vendado, arriscava experimentar os descaminhos dos morcegos. Bate-não-bate, sobe-e-desce, tainhas em diagonais, caracóis no ar. Nisso, aproveitava para espalhar sementes de pés de quê.

ISAÍAS-PLANTADOR-DE-árvores não morreu quando brincou de pegar, de uma vez só, pneumonia, tuberculose e calazar. Mesmo seco, mirrando-se, ria-se ainda muito. Emagrecido, febre lá pelas tantas, brincava de quente e frio. De gela-tá-longe. Tremia-se de quebra-queixos.

QUANDO CAIU DOENTE, já havia plantado mais benjamins do que carros. Então os motoristas engarrafavam-se à procura de sombras. Por ele, todo mundo teria uma árvore ao invés de um anjo da guarda. E nunca poderiam deixá-la cortar.

PENSAVA ASSIM, HAVIA gente que parecia com a família das jabuticabas. Doces, olhinhos pequenos, bilas tição. Quando passado, a avó alimentava uma multidão de jabuticabeiras. Um jabuticabal mal acostumado. Não acarinhasse os troncos, não falasse bom dia, não cantasse pra dormir - não dava frutas em botão.

AS TOMATEIRAS TAMBÉM eram birrentas. Assim como as mangueiras, os tamarindos e os pés de jaca. Jaqueiras cheias de nove-horas. Deixavam até de beber água, mas as tardes com a velha não podiam deixar de anoitecer. Sentada ali debaixo, nem se preocupasse, podia ir batendo o bolo ou brincar de se lembrar. Não cairiam de maduras.

PRA CADA NETO DEIXOU testamento. As goiabeiras, bem vinte e três, com cinqüenta lagartas-de-fogo, 101 joaninhas, um bando de percevejos, duas sabiás, três sibites e duas famílias de caldo-de-feijão ficaram pra o mais novo dos meninos.

A MENINA DO MEIO recebeu da avó as mangueiras de frutas rosas (de comer cortando com faca de mesa), as tamaracás de chupar e os pés de cajaranas. Sem cascas, pé de sal, e as touceiras de cana doce. Pro miudinho, também doou o macaubal e a récua de coco-babão.

O BAMBUZAL, OS SACIS e um monte de borboletas enxeridas ficaram para Pedro. Com uma condição, não caçasse os pernetinhas. Pra Raquel, Sarah, Letícia e Milena entregou os ninhais de andorinhas de entardecer e as latadas de maracujás e beija-flores. Além das pedras de morar musgos e o lago de cantar rãs.

ISAÍAS-PLANTADOR-DE-ÁRVORES herdou tudo que foi de sementes de pé-de-quê, gatos libertos, e os novembros de ipês amarelos.


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