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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Remam-remam...


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10/03/2007 00:30


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VI N´ALGUMA PELÍCULA que crianças são semelhantes aos pássaros. Adoram ser observados, desde que não os machuquem. Desde que não os aprisionem. E quando presos (covardemente), descobrimos amá-los no momento em que decidimos abrir a gaiola. Isso quem me disse foi Ana dos Suspiros. Passarinhos, meninos e meninas não devemos roubar-lhes a candice.

FOI ASSIM. ACHAVA esquisito um desmedido amor que alguns sentiam por suas crias e miúdos dos outros. Lambidas além das contas, alisados intermináveis, colos a cavalheiro. Beijos melados perto das bocas, mania por cheirar cabelos de shampoo, cegueira pela meninice.

HAVIA NA RUA ladrões de infância. Quase invisíveis, enchiam os sacos com idades pequenas e iam roubando. Um deles chegou a esbarrotar um guarda-roupa, uma canastrinha e um oitão com carradas de puerícias. Um nojento.

DESCIAM DAS PALHAS do coqueiro, com potes de bombons, arraias coloridas, piões, bilas, bonecas de papelão, pirulito Zorro, jogos de pedra e esconde-esconde. Amarelinhas. Daí, saltitavam casa a casa até chegar a 10. Se a pedra rebolada não chegasse ao céu, caixão. O inferno passava a vez.

VOLTE TRÊS CASAS quem não acertar sete no arremesso de dadinhos e perder o caminho de volta. Passarinho, com fome, comeu os farelos de trigo. Pague uma prenda! Remam-remam quem for lá em casa assistir à Sessão da Tarde e ficar só de calcinhas e cuecas. Ganha uma xícara de café (leite e Toddy), um bico de pão (pra comer mergulhando) e uma Lagoa Azul.

NINGUÉM RESGATAVA Rapunzel. Tranças cortadas, ia sendo devorada pelo dragão cospe-fogo que pra rua era um príncipe. Ladrão de infâncias. Fazia o que fazia durante tardes infindas. Enfeitiçava os adultos e, vizinho, aproveitava Chapeuzinhos.

NO QUINTAL DA CASA do Bicho Papão, enterrava sacos de vozes. Calados! As falas de meninos e meninas, com as chuvas, floresciam. Capinzal medonho, dos cabelos de capim. Quem antes ofereceu mel, agora, lhes dava fel. Amargor.

PELO FIGO DA figueira que o passarim bicou, não me cheire os cabelos que minha mãe lavou. Não me toque a candura, nem me leve da infância e das brincadeiras de ir à Espanha.

OS NOJENTOS ROUBAVAM tudo. Até os choros. Podia ser o pai, o amigo grande dele, o vizinho de confiança, o irmão mais velho, o padre, o dono da bodega (e dos chocolates) e até o avô. Havia bruxas também. Maçãs vermelhas e conversa pra boi dormir.


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