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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O que nos embaçam os olhos caros leitores,

Demitri Túlio


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03/03/2007 00:53


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HOJE DAREI UMA pausa nas histórias inventadas para fazer-me de intermediário dum pedido de ajuda. Não pra mim, mas para Mário Gomes - o poeta da praça do Ferreira. Não calha aqui, a qualidade de seu devaneio literário. E sim, a dignidade de homem comum a que assistimos se desmiliguir pelas ruas de Fortaleza.

PROVOCADO PELA apreensão dos jornalistas Gilmar de Carvalho e Paulo Verlaine, me dei conta do que nos embaçam os olhos. Todos sabemos, todos enxergamos, que Mário Gomes tomado por um distúrbio emocional passou a perambular por lugares de sua memória na Cidade. Fez assim, depois da morte da mãe e de uma suposta suspensão de pílulas controladas. Há pelo menos dois anos.

FLANA EM UM RUMO de morcego. Entedimentos embaralhados, peso ficando pouco, palitós sambantes e um charuto mordiscado. Olhos afogueados, bufa palavras aborrecidas pra uns ou para o tempo, aperreia-se e não pára em lugar algum.

BATE PERNA ENTRE a praça do Ferreira e o Centro Dragão do Mar. Mesmo na confusão de pensamentos, guarda na memória pedaços de relacionamentos. Encara quem o entrevistou, ou conhecidos da intelectuália, e tenta tabular monólogo impaciente. E assim vai, rodeando lançamentos de livros e portas de livrarias.

JÁ FOI VISTO TAMBÉM, quase atropelado, nas proximidades da Escola de Aprendizes Marinheiro. Leste-Oeste ou descida da igreja do Senhor dos Navegantes. Pés apressados e cegos. Quando não, toma chá de sumiço e corre o boato que Mário morreu. Alardearam em fevereiro e o alumbrado ressuscitou na Domingos Olímpio.

DE POETA POPULAR da Praça, assentador dos bancos do Boticário, Mario Gomes passou a louco da aldeia. Mais um. Toda rua sempre teve os seus. O Scânia da Bezerra de Menezes, o Michael Jackson do largo da Catedral, dona Graúna da praça da Bandeira, a Mulher que rodopiava e ninava trapos na feira das terças, no Porangabuçu... Dona Guarda-roupa do Conjunto Ceará, Maninha do turbante (da 13 de Maio, Beira-Mar e, agora, Assembléia Legislativa), o Cão Chupando Manga da feirinha da Volta da Jurema...

FORTALEZA, OU QUALQUER cidade, parteja seus devaneadores. Os diferentes. Em 1915, o Casca de Urubu perdia as estribeiras quando a gentália entoava "Casca de Urubu...bu...bu!". Antes de deixar de ser cartesiano, conta a lenda, o fulano lutou em Canudos e foi oficial de justiça. Acabou expulso do emprego por ser epilético. Houve também o Pilombeta, o De Rancho, Tertuliano, Manezinho do Bispo e outros que se transformaram personagens.

MÁRIO GOMES PODE ser ajudado. Por qualquer um que cruze seu rumo de morcego. E onde estão seus parentes? Os médicos (contistas, cronistas e poetas) bem que poderiam intermediar uma casa de repouso. Os grupos literários da Cidade, algo mais que lamentos. Daqui a pouco, o homem fenece (talvez atropelado, talvez morte morrida) e estaremos nós (jornalistas) atrás da história e a intelectuália a querer aparecer na foto e dar depoimento sobre o poeta.


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