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Das Antigas

DAS ANTIGAS

A passarinhada

Demitri Túlio


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24/02/2007 01:08


A LADAINHA AO PÉ do ouvido era insuportável. De manhã, à tarde e à noite. Rabugento. Nem sabia como havia aceitado se casar. Não houve o tempo de idílio. Flerte, suadeira quando se chegava, pernas bambas, coração aperreado, primeiro beijo, bilhetinhos adocicados, namoro...

ESTRANHO DIA, AMANHECEU com o homem. Assustou-se com a aliança no tornozelo esquerdo e na mão de casada. Argola grossa. Depois foi saber que ele havia arrancado quase os dentes todos da própria arcada. Ouro puro. Os substituiu por prata.

ESTAVA ALI, CASADA. Escolheu por se acostumar com as coisas de casados. Era o jeito. Filhos que vinham um atrás do outro, levantar-se antes do homem para servi-lhe café. Pensar no almoço, controlar o choro e a febre dos miúdos. Adivinhar o que o senhor queria para o jantar e ainda satisfazê-lo no começo da noite.

NÃO ESTAVA NEM aí para os desejos da senhorinha. Nunca foi ao céu. Ele ia rápido. Depois saía de cima (nunca permitiu ficar por baixo e nem que gemesse), virava e pegava no sono. Não havia beijos, dedos nos lábios, olhos fechados e dizeres safados ao pé da orelha.

CONTRÁRIO. VIVEU parte da vida (e foi muito tempo) debaixo de gritos. Berros escrotos, resmungos e turrices. O rezinga azucrinava-lhe o juízo já perturbado. Além do mais, era um putano e trazia coisas pra esposa. Banhos de assento com aroeira, pílulas do Doutor Mattos, antibióticos, sulfas e gororobas pra extirpar as porcarias.

O TURRÃO ERA UM NOJENTO. Daqueles falsos moralistas que rasgavam o vestido da abestada por causa dos seios saltitantes. Abainhados, só permitia abaixo dos joelhos. Na praia, saiotes ao invés de maiôs. Carmim no rosto? Nem pensar. Batom e perfume, jamais. O cabelo tinha de ser longo, nem inventasse promessa em Canindé ou Juazeiro. O pescoço não havia de ser mostrado.

NUNCA FALOU EM tom baixo com Anabela. Os uivos do animal eram ouvidos na cidadela inteira. Não era o único. Filhos homens viraram rezingas também. Brutamontes procriados aos baldes. Iam crescendo, acostumavam-se com os gritos do varão, casavam-se e bramiam com as suas.

ANABELA, DE TANTO ouvir berregos e imperativos, ensurdeceu. Pensou nas mazelas trazidas pelo marido. Arruinara-se. Choramingou. Mas não foi ruim. O turrão podia berrar como fosse e não era escutado. Esgoelava-se e ela apenas ouvia o que vinha do quintal. Quanto mais o homem estrebuchava, mais percebia as sabiás. Atendia ao que nunca havia chegado aos ouvidos. Assim foram todas. Berrassem os grosseiros, a passarinhada furtava-lhe os gritos. Mudos.


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