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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Crisântemo, álamo e lápis lazuli

Demitri Túlio


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17/02/2007 01:34


NÃO CHEGARIAM ÀS BODAS de Jequitibá. Chorou por isso. Não por morte. Acreditava que alcançariam a casa dos 115 anos. Assim fosse, antes de fenecer, fariam a derradeira festa de suas vidas. Lacrariam 100 anos de um casamento iniciado aos 15 de idade. Tinha 114 anos cada um. Mesmo mês, coincidência de datas e primos legítimos. Destino. Cria nessas crendices.

O OBSTÁCULO SERIA o imponderável da velha. Sarah. Temperamento forte. Inventora de manias e gênio de pedra de sal. Os dois ainda estavam lúcidos e sexualmente ativos. Sim, pois sim. Há coisas que a mediocridade corriqueira não consegue alcançar. Como se um casal, ainda em Bodas de Madeira ou Ferro (cinco anos), fosse exageradamente fornicante. Nem sempre.

OS DOIS, SIM, não escondiam os fazeres. Estava estampado na rinchadeira incomodante. Tanto que os filhos e esposas, apesar do casarão, foram se mudando. Era estranhado surpreendê-los se esfregando. Pia da cozinha, banheiro de porta aberta, corrimão da escada, parapeitos da janela ou sofá da sala de receber.

OS FILHOS IAM se desfazendo dos casamentos. Engatavam outros e não vingavam também. Daí, as infindáveis terapias, psicólogos, remédios controlados e descrença na relação a dois. No fundo, morriam de inveja dos pais. Os rebentos homens, no frigir dos ovos, estavam presos aos gemidos da mãe. Enlouquecedores. Infância e adolescência ouvindo o miado.

JÁ AS FILHAS ACABARAM Electra. Não que o pai quisesse. Nunca, não era um porco. Desejava-as amantes dos próprios maridos. Felizes como a mãe, sorriso de ponta a ponta. A velha sempre fora banqueira com o marido. Abraão. Mas até isso fazia parte do joguete da sedução. Eram derramadas pelo velho, não havia homem igual.

TALVEZ O FOGO, a razão de permanecê-los exageradamente vivos. Viram morrer amigos caros, filhos, vizinhos, netos, gatos, vagalumes e goiabeiras. Os dois, no entanto, continuavam sobrevividos um para o outro. Bastava.

O VELHO ENSAIAVA algumas explicações pra tanto tempo de convivência. A esposa havia alguns trique-triques, mas ele sabia contornar. Paciente. Mal se casaram, quatro anos, ainda comemorando Bodas de Flores e descobriu que Sarah não gostava de coisar nas primeiras horas da manhã.

O PROBLEMA ERA o mau hálito matinal dele. Nesse caso, a halitose não era doença. Não. Ninguém amanhece soprando orquídeas. Nem ela, mas o homem não tinha frescuras. Então, porque a mulher não suportava, impedia que a beijasse de língua. Isso, para o moço, era inconcebível. Pensando no casamento, passou a se levantar cinco da manhã. Escovava os dentes, tomava um suco de maracujá e idílio.

A SENHORINHA TAMBÉM não permitia ser beijada depois que o amado fuçava entre suas pernas. Insuportável a própria entranha. Pra ele, um bálsamo. Se fizesse uma coisa, não usufruiria de outra. Concordou. Foi desse modelo que chegaram às bodas de Papel (1), Carvalho (38), Lápis Lazuli (57), Vinho (70), Benjoim (78), Crisântemo (84), Álamo (90), Imbuia (93) e Salgueiro (99). O desafio era Jequitibá. Sarah queria, porque queria, coisar pra emprenhar.


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