Demitri Túlio
10/02/2007 00:12
A GRUNHIDELA SEGUIU-SE de um berro horrendo e infindo. Assaltou os cômodos e vazou pela rua, despertando quem ainda não tinha acordado com os galos. Um bairro de muitos galos. Em toda casa havia um ou dois. Cantantes, madrugadores. Uns afinados, outros irritantes.
ARREPIARAM-SE COM o gemido. Vovô não havia amanhecido e a velha não parava de se esgoelar. Gritava porque era mouca. Militar da reserva, definhara nos últimos três anos. Coronárias, acidentes vasculares cerebrais e um retorno repentino e oscilante entre a infância e adolescência.
UM BUENHACHO, AFÁVEL. Talvez por isso o motivo da buela abrir o bué e quase secar as lágrimas. Passou mal, desidratou e teve de ser acudida na veia. Entorpecida, atolada nos calmantes voltou a se derramar pelos olhos. Derreteu-se no hospital.
EM CASA, ESCOLHERAM o fardão de galões e assearam o melhor cômodo do casarão para o velório. No andar de cima, no próprio quarto onde o casal fez quatro varões e três fêmeas. Elas, todas tias, coroas conhecidas no bairro. Um filho apenas foi ser militar, mas não passara de praça.
OS OUTROS, DOIS DESBANDELADOS. O mais novo diziam ter virado gente, fez curso superior, casou-se com uma fresca e era considerado o esnobe da família. Nem era, apenas não se dava com o fuxico e o entra-e-sai do canelau na casa.
O VELÓRIO DO VELHO foi motivo de patuscada. Veio a família quase toda, magotes do bairro e alguns militares desativados. Gente que passava pelo defunto e descia pra se abancar na mesa grande de comer. Um café, bolachinhas, fofocas, galanteios e conversas bestas.
AS TIAS, PREOCUPADAS com as falações, providenciaram merenda das nove. Depois resolveram sangrar um carneiro que engordava há seis meses no quintal. Ele e um barrão. Não deram vencimento. Mataram, também, as galinhas pé-duro e as de granja - poedeiras de ovos de duas gemas.
ATRAVESSARAM A noite, e os que chegavam nem mais subiam pra tirar o morto. Assentavam-se e engordavam na comizaina. Na manhã seguinte, com os galos, serviram-se de café, leite e carne-de-lata comprada na bodega. Novamente outra boquinha. Sardinha. Fizeram burburinho pra saber o que ofereceriam no almoço novo.
FOI MÃO-DE-VACA. Gorda. Não deu pra todo mundo. Compraram feijoada de lata. O que restava no mercadinho. Uma alma, menos sanguessuga, trouxe uma manta de toucinho e farinha. Torresmo pra quem não estava de resguardo. Mastigavam, conversavam, zoavam, bebiam, palitavam e chupavam os dentes. Soltavam bufas.
NO FIM DE TRÊS DIAS, uma rabada. Empanturraram-se todos. Empanzinados, abarrotados, enfartados. Empapuçados. Hibernaram apesar de Inhamuns. Muito. Enquanto o velho se desmanchava no andar de cima.