Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Das Antigas

DAS ANTIGAS

Bodas de ouro

Demitri Túlio


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

03/02/2007 00:48

O HOMEM ERA UM bruto. Desses diabos batizados de dar coice ao vento. Por nada. Daqueles de coçar as costas na parede. Roçar-se e cuspir no chão. De berrar ao invés de gentilmente pedir e grunhir quando perdia a capanga ou sumiam com o pente fino (Flamengo).

ENTÃO QUANDO NÃO estava em casa, ninguém sentia saudades. Um céu. Rebento nenhum torcia pra que chegasse a hora do almoço. Era a volta dele e aos gritos exigir da égua as japonesas, a tolha de banho e que o prato estivesse posto. Comia de cuecas e suava em bicas, alvoroçado.

PRA ELE, A COXA e o peito da galinha. Dois, três pedaços de bife e os gelos da leiteira. Tinha a mania de chupá-los enquanto o rádio, na mesa de comer, e a televisão da sala (vizinha) gritavam. Nem aí. Brigava com o locutor, discutia de ficar vermelho e cuspir sobejos. Um insuportável.

E OS FILHOS NÃO entendiam a mãe. Cinqüenta anos de casamento e uma submissão católica de dar gastura. Para as mais velhas, confidenciara que sonhou outra história. Com delicadezas e sutilezas. Não desenhava o impossível, pequenas coisas. Gestos miúdos que dessem o tom de surpresas inesquecíveis. Tratados sobre o ínfimo.

UMA FLOR PEQUENA de ipê-amarelo do quintal, que fosse! Um bom dia ou um elogio porque pintara as unhas roídas de pia. Mas o bruto nunca dera o menor sinal, nem quando ainda namoravam. Aliás, não houve tempo pra namoricos. Foi escolhida e o pai a empurrou para que não morresse seca. O noivo tinha comércio e seria a salvação. Pensando assim, foi.

FORAM VINTE E CINCO filhos. Escadinha. Um atrás do outro. Começou a parir com quinze anos e quase se arrebenta. Peitos no chão, barriga flácida e por tempos (ainda agora) uma angústia que lhe assaltava o juízo. Algo lhe faltava. Não das coisas ou da ausência de sentimentos do bruto. Não. Acostumara-se.

NÃO HOUVE NUNCA um orgasmo. Prazer nenhum. Deitava, abria as pernas, deixava ele dinamitar um canal e embuchava. Nem nos dias das regras era dispensada. Ouvia o grunhido do bicho, suportava o suor e, quando o hipopótamo adormecia, corria ao banheiro pra limpar os nojos e vomitar. Jamais experimentou um beijo boca a dentro. De ninguém.

MAS DE TANTO engravidar, passou a sentir falta da barriga plena. Dos peitos fartos, do andar pesado, dos desejos improváveis, das ancas enlarguecidas. Época que mais abusava o senhor seu dono. Entojo. Único tempo que se tomava de coragem e força e não permitia que a tocasse. Azunháva-o. A vontade era esganá-lo enquanto ferrava no sono. Mas resistia.

ADORAVA OS FILHOS. Mas quando paria, a subserviência volvia rastejante. Subordinação, sujeição, obediência canina. Dispunha-se e aceitava o estado de dependência. Um rebaixamento servil e abjeto de apodrecer os estômagos. Conformadíssima, chegaram às bodas de ouro. Porque sempre foi calada. Sentia falta de embuchar. Perdera 25 chances de esfolar o bosta.


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato