Demitri Túlio
23/12/2006 01:01

FIQUEI CISMADO COM a brincadeira de amigo secreto, desde o dia em que recebi latinha de Baygon de presente. Tinha pavor a piolhos. Horror. Apesar de pequeninos, morria de medo. Pelavam-me. Só em falar, sinto-os andando de um lado para o outro - mesmo sem tê-los. Coça-me o couro cabeludo e na pele há um pinicado afogueante.
NEM SEI POR QUE fizeram a maldade de dar o Baygon. Da sala, era exatamente a única criança que não possuía os bichos. E não é porque, lá em casa, o inseto não entrasse. Não. Mafuá de muito menino e menina, e pente só, era quase impossível. Havia tempo de não ter um, mas outros de piolheira.
LEMBRO QUE TRANCAVA AS portas e janelas, assombrado, quando a vizinha resolvia ocupar o batente da sala de receber para campear piolhos dos rebentos. Um ritual medonho que me arrepia os pêlos até hoje. Pente fino na mão, pano alvo nas pernas, ia ciscando. Antes, baforava a cabeça da cria com o Baygon.
IAM CAINDO, UM POR UM, no véu branco. Sinhazinha explodia-os entre as unhas e limpava o sanguinho na própria roupa. Imaginava que os que escapassem, correriam lá pra casa. Fechava as venezianas e ensebava os parapeitos com banha de galinha ou manteiga da terra. Tentassem, ficariam ali. Ainda colocava alguns soldados verdes (capacete e arma) de sentinela.
JAMAIS ESPERAVA GANHAR latinha redonda de Baygon. Também não achava que fosse receber um Ferrorama. Desde que me entendi por gente, a única surpresa foi ser presenteado com um almanacão da Disney. Fantástico, edição especial de "Os Bandidos". Mancha Negra, Madame Mim, Irmãos e vovó Metralha, Ranufo, Patacôncio, Maga Patalógica e João Bafo-de-Onça.
DAS OUTRAS VEZES sempre enchia os olhos d´água. Um tubo grande de Aceptol, dois sabonetes Alma de Flores, uma caixa (das pequenas) de lápis de cor, um transferidor, compasso... Pra que diabos eu ia querer aquilo? Mas acho que não merecia coisa melhor. Os presentes (lembranças, como dizia mamãe) que levava, não eram lá grandes coisas.
UM VIDRO DE ALFAZEMA Suíça, pequeno. Um gigolet, dois Phebos, uma pulseira de continhas coloridas, uma casa feita de palitos de picolé... Caso tirasse a professora, e se ela fosse legal, mamãe comprava o Toque de Amor da Avon. Mas isso era raro. Cheguei a levar até uma lata de goiabada. Vergonha pra um menino.
SIM, MAS OS PIOLHOS. O trauma veio depois da morte de Seu Gabriel. Um velho contador de potocas do Porangabussu. Dizia que os nojentos, assombrados, abandonavam o couro cabeludo dos recém mortos. Quando percebiam a frieza do sangue, desesperavam-se e fugiam. Imaginem a vergonha da família. Em pleno velório ou antes de vestirem o morto com roupa de defunto, ainda na cama, as hordas batiam em retirada.
O DE SEU GABRIEL foi assim. Natal. Apesar de maduro, não sofria de calvice e nem do mal de homem goro. Calibre bom. Sangue quente, só baixou a guarda perto de fecharem o caixão. E quase não fica gente pra segurar nas alças. Piolhama.