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Das Antigas

DAS ANTIGAS

A coitada

Demitri Túlio


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16/12/2006 02:45


DEPOIS DO CERCO
covarde, a acuaram no oitão. Mãos no pescoço dela impediram-na de fazer alarde e espernear. Eram seis idiotas contra ela sozinha. Estava cansada, esbaforida, língua de pedir água. Enfurnaram-se por trás das touceiras do bananal.

O CACHORRO, COM NOME de peixe do mar (Tubarão), ficara enlouquecido. Corria, aperreado, em redor deles. Dois tabefes e uma pedrada e o espantaram dali. Ficou de longe, sentado no traseiro, pescoço levantado, orelhas em pé. Grunhia e fungava nas ventas. Batia a calda nervosa na poeira e, quando latia, desviava-se das pedras. Cala a boca, baitola.

ELA IA RODAR ENTRE eles e quem fraquejasse ia se ver com todos. Além, é claro, de virar mulherzinha. Poderia ser o próximo se falhasse. Chegaram até ali, iriam até o fim. Era só fazer o que viam nas revistas de mulher nua e repetir as falas dos balões das fotonovelas. Se gemessem, teorizavam, facilitaria tudo.

MAS GEMESSEM BAIXO, estavam não tão distantes do alpendre da casa. Ninguém ouviria, é certo, mas o cachorro tomava gosto na saliva e não tirava os olhos. Poderia aprontar. Latiria de propósito e assanharia a cachorrada zoadenta do bairro.

ELA ESTAVA AMORDAÇADA, esparadrapo. Muda. Era tardezinha, hora ainda do descanso do almoço. Mas daqui a pouco se levantariam pra passar o café das três. Café de mergulhar pão de se brigar pelo bico. Depois, pensar na janta. Provavelmente, sobras de meio-dia. Uma sopa de feijão, arroz branco e ovo estrelado ou canja de galinha.

COMEÇARAM. O MAIS VELHO, metido a arrochado e bruto, foi o primeiro a provar que tinha pinta de macho. Fez meio desajeitado e soltou um grunhido desafinado. Entristeceu por uns segundos e com um olhar determinou quem era o próximo.

ESSE ESCONDEU-SE DE lado pra não medirem a pouca coisa. Tamanho era documento e poderiam rir dele até o fim da vida. Fez apressado e se desfez da coitada que tentou correr, pernas bambas. O terceiro pulou em cima. Afoito, empabulador, demorou. Era pra hoje. Não conseguiu, chorou ligeiro e fez carreira. Demoraria a dar as caras na rua.

A COITADA OLHAVA arregalada. Mexia-se nas mãos do quarto, esperneava no lugar do grito. Sufoco de esparadrapo. No quinto, paralisou por segundos. Achavam até que havia morrido. Mas o coração batia e nos olhos havia brilho. Desistiu de tentar reagir e quando vinham com força, apesar de pouca coisa, contraia os pés.

DOS SEIS, RESTAVA o último. Quis não ir, mas ficou com medo de ganhar fama de baitola. Olhou para os quatro e pensou em ser mais homem do que eles. Desistiria. Daria, inclusive, uma de herói e meteria sebo nas canelas com ela nos braços. Agüentaria o peso.

MENOS ESPEROU, FEZ isso e desembestou. O cachorro, lá de longe, fez carreira e tangeu os outros dali. Ela, quase morta, foi posta debaixo de uma panelão. Era assim que ressuscitavam os pintos. Pra uma galinha também serviria. A mãe, despertada, ralhou da arrumação e ordenou que cessasse o baticum.

DEU CERTO E A POEDEIRA do pescoço pelado correu tonta pru galinheiro. Estava sendo engordada, presente dos aderentes do Interior. Daquela galinha não comia mais os ovos, reclamasse a mãe ou a avó. Fastio repentino. E corria pra vomitar quando o pai, machão de registro, tomava gema e clara. No cru.

OS MENINOS QUISERAM lhe dar uma pisa no caminho de volta da escola pra casa, e só não fizeram porque ameaçou fuxicar pras mães vizinhas. O medo e o meio-dia deram na fraqueza. Levou um tabefe por não lavar as mãos e gritar pelo seu. Comeu faminto e só estalou quando viu na boca da avó o sobrecu. Arrancou-o da dentadura da velha e puxou a toalha da mesa. Era ela.

PRATOS QUEBRADOS, comida no chão, o cachorro avançou no sobejo enquanto o atoleimando apanhava pra largar o choco. Muito. Mas achou bom terem mandado pras vizinhas, provinhas dos miúdos e da banha da galinha obesa. Servia pra gargarejos de dor de garganta.


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