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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Maria Tercina ou Sinhá

Demitri Túlio


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09/12/2006 01:34


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DEPOIS QUE A APENDICITE estrangulou, morreu, se valendo por Nossa Senhora do Bom Parto Cesariano. Também era especialista em fazer passar dolores. Albérico não largou a mão da esposa morta até que decidiram arrastá-lo e aferrolhar a tampa do caixão. Morria-se de apendicite supurada.

DEPOIS DO FENECIMENTO dela, o velho durou apenas dois meses. Não havia doença alguma, um touro. Findou morrendo de precondia. Mal das faltas exageradas que a mulher destroçava nele. Saudades indizíveis de doer fino nas lembranças e gemer. Morreu também.

SOZINHAS, AS DUAS filhas desfizeram-se das tralhas e foram morar na Capital. Maria Tercina deixou o cargo de moça empregada, como operária de uma usina de algodão, e Ana Luzia, a mais nova, findou o romance que havia desde brochota.

VIERAM E MORARAM bem, na Major Facundo esquina com a Liberato Barroso. Um casarão adquirido, graças ao apurado do pé-de-meia do pai. Iriam concluir os estudos e lecionar. Tercina pensava assim, desejava se casar e ter pelos menos sete filhos e uma enteada. Ana Luzia não tinha pressa e adorava borboletear ao redor do coreto da Praça do Ferreira.

QUEM ACABOU CASANDO primeiro foi a mais moça. Com um frangote capitalista (porque era da cidade, só por isso) que afinava violões e pianos por ofício. Um tipinho boa vida. Por isso, vivia às turras com a cunhada. Não era profissão que desse pra sustentar mulher e filhos.

PENSO, NA VERDADE, que não gostava do cunhado porque não houve marido pra ela. O cunhado não era homem seu, era da irmã. Mesmo que nada. Cansada de derramar-se nos parapeitos e não chover em seu roçado, apaixonou-se por Orlando Silva e não quis mas flertar com seu ninguém.

SIM, ORLANDO SILVA, o vozeirão. Encantou-se após um show na Praça do Ferreira. Engabelou-se de um jeito tal que perdeu a noção das coisas. Passou a esperá-lo toda tardinha. E achava que ele chegava mesmo, perfumado, ipê amarelo na lapela. Ela ia falando, horas e horas, com a cadeira ao lado até que a irmã vinha lhe tanger pra dentro.

BOCA DE BATOM, dizia que sonhava com o dia em que Orlando a beijaria e lhe borraria os lábios e maçãs. Esperava-o sempre. Namorou, trocou alianças e destinou centenas de cartas pra ele. Remetia e recebia, dela mesma, textos-respostas com a assinatura forjada do amor.

ESPERAVA-O SEMPRE, paciente. Até o dia em que correu a notícia que o amado falecera de influenza. Morria-se de gripe espanhola. Viuvou. Emparelhou as duas alianças no dedo, vestiu preto na intimidades e marrom-mortalha nas roupas de fora. Chorava e carpia, sozinha, a própria dor. Via-se lábios beijados, mãos afagadas...

DOIS MESES DEPOIS do sumiço de Orlando, após só provar de um almoço de domingo, foi ter uma madorna (não dormia) e surgiu morta para a irmã e o cunhado. Fenecida de precondia.


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