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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O liquidificador

Demitri Túlio


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02/12/2006 00:46

LIQUIDIFICADOR. QUANDO FORAM MORAR no primeiro prédio de apartamentos construído na cidade, ninguém sabia conviver. Vizinho ao Center Um, sabiam sequer andar no shopping único da Capital. Eram pessoas de Centro, acostumados a baixar as portas ao meio dia e só reabrir lá pelas 3, sol mais friinho. Todo mundo tirava um ronco após o comer.

SEI QUE VIZINHANÇA de alcovitagem e disse-me-disse acontecera sempre. Bacanas ou canelau. Em vilas, amontoados de taipas ou alvenaria parede-meia, o futricado nunca deixou de formigar nas veias. Não havia menina que virasse moça e passasse invisível. Ainda mais porque a mocinha coçava-se diferente e a rua enxergava de rabo de olho.

TAMBÉM MENINOS QUE TROCASSEM por piper ou rosca de esfarelar nos dedos não escapavam das línguas. E sobre as fornicações! Quem traía a mulher com a empregada ou era trocado por vizinho mais presente, virava fio de fiar conversa de candinhas. Comadres que adoram passar o dia, portas e escutas escancaradas, a tomar fresca por desculpa e ouvir o particular.

NO LUGAR NOVIDADE, encostado ao Center Um, primeiro edifício de morar gente da cidade, uma impertinência ou puro ato instintivo fez vizinho quase se esbofetear. Teve dia de parar três ou quatro fusquinhas preto e branco, rádio-patrulha, achando que havia ali um aparelho dos guerrilheiros de Marighela.

ERA NADA. UM VIZINHO,
cansado de azucrinamentos e de não conseguir pregar os olhos noite a dentro, resolveu se vingar da vizinha. Mulherzinha mirrada, de não se dar nada por ela. Tísica. Havia olhos belos, azulados. Mas não tinha peitos, bunda e boca pintada. Olorizava, isso é verdade, e talvez por isso os segredos.

NO CORREDOR, NA REPARTIÇÃO ou na reunião de pais e mestres era uma pessoa, à noite se transfigurava. E não é porque era mãe solteira que os vizinhos estavam de tromba. Não. O filho da vem-vem, inclusive, foi levado pela avó. A criança também não dormia quando era dia de alcova. Quatro, cinco vezes na semana. Demais.

NOITE DAQUELAS, O VIZINHO, esgotado, pinotou da cama e depois de puxar uma extensão elétrica para entrada de três pares de machos, ligou no cinco os liquidificadores. Arno. No pé da porta da égua. Encheu de gelo, bila e fez-se o inferno. Ela correu coração na boca, apavorada.

A CATEDRAL, OU O PRÉDIO recém construído (vizinho ao Center Um), estaria desmoronando. Começando pelo apartamento da escandalosa. Era pra vingar a mirrada. Em madrugadas de fornicação, embaixo ou em cima de um negro, esgoelava-se gutural, batia-se emparedada, gruzungava. Grunhia, miava, atroava, arranhava no armador sem óleo, choramingava. Berrava. Berro, às vezes, fino de invadir até os moucos.

ERA DE CAUSAR ESPANTO. EMBASBACAR-SE. Tão nada ou quase morta, pomba-lesa, e rezingava na hora das libertinagens. Ranhenta, perturbava até mortos de sétimo dia. Liquidificador! Era pra ver se suportaria o avesso.


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