Demetri Túlio
18/11/2006 02:29
MARCOU PARA SEGUNDA-FEIRA o início da dieta. Lacraria a boca. Todo fim de semana se penitenciava na ladainha. Estava redonda e por causa disso, nunca mais havia ficado nua na frente do marido. Nenhuma toalha a abarcava, passara a se enxugar nos lençóis, e mudara, inclusive, de banheiro e sanitário. Contra a vontade do esposo, chegara ao cúmulo de abandonar a alcova.
PASSOU A ANDAR DENTRO da própria casa, somente, se o amor não houvesse por lá. Ou, então, quando o rapaz voltava cansado da repartição e, após tomar sopinha de legumes ou canja, agarrava no sono. Na frente dos filhos e da criadagem até se permitia. Mas de uns tempos pra lá, nem isso.
MANDOU RETIRAR OS espelhos que existiam nos corredores e cômodos do casarão, parafusou as trancas das janelas e enfurnou-se. Pesada, já não mais se reconhecia alguma coisa. Gorovinhas e gelhas por todo corpo. Dobradinhas e amarrotamentos.
FEZ ASSIM. CHAMOU a cunhã de forno e fogão e mandou que fosse extrema nos temperos. Pratos singulares. Exagerasse além do abuso. Onde coubesse um dente de alho, empurrasse 10 ou vinte cabeças. Salgasse o que já fosse pia, avinagrasse os sucos ao extremo e, ainda, não lavasse a louça que lhe servisse de cocho. Queria ver se a boca ainda a desobedeceria.
O PROBLEMA ERAM OS olhos, maiores que a barriga. Pediu pra ser tratada como o barrão da vara de bácoros do quintal. Depois que todo mundo se satisfizesse, enviasse-lhe pela portinhola de seu pardieiro as porcarias. Sobejos, asas de galinhas já roídas, cebolas rejeitadas, olhos de peixe chupados, restos de osso buco, pirões gelados e feijões com gorgulhos.
PLANEJOU E PEGOU doença das amídalas. Vermelhas em brasa, tinha impressão de haver nascido giletes na garganta. Não desceria nem licor, sorvete, aloá ou guaraná com biscoitos champanhes. Nem raspinhas de maçã ou banana batida no leite em pó e Nescau. A gula a aperreava e excitava. Um atrás do outro.
NÃO REGUJITOU NADA. Avesso. Com o mesmo apetite, ou ainda mais medonho, foi engolindo o que havia sido despejado na vasilha. Agora, um tronco de madeira cavado e fundo. Não conseguia mas se acomodar em tamborete que fosse, ficava de quatro - rabo pra cima e fuças atoladas na lavagem. Sorvia, quebrava no dente o que fosse rijo, e lambia o prato apesar do aspereza.
NÃO HAVIA MAIS a esposa do rapaz, mãe de alguns filhos, patroa de uma ou duas empregados. Como foi deixando até de andar pelas ruas, becos e corredores de casa foi ficando deslembrada. Um dia, por descuido da fazedora de comidas, a porta ficou aberta e a imensa correu para o terreiro. Sumiu no no meio da pocilga.