Demitri Túlio
11/11/2006 01:15

NEM POR ISSO morreram e foram para o inferno, nem por isso foram infelizes. Não. Irmã Felicidade e Irmã Branca, ainda as vi no Centro da cidade e algumas vezes quando mamãe nos obrigava a fazer o pé do cabelo com elas. Feitio de pinto pelado, bom pra tirar selo e levar chulipas. Emburrado, vovô preferia que esperássemos o barbeiro da bicicleta na porta de casa.
MAMÃE ERA A ÚNICA da Duque de Caxias que levava os seis filhos (quatro meninos e duas meninas) ao gabinete de beleza das duas ex-freiras. A rua toda as ignorava. Fora nós, vez ou outra, cliente que não era do bairro entrava desavisada. Mesmo depois de tudo, avessa à vontade alcoviteira, a providência divina e mamãe eram retas.
ALÉM DOS TRABALHOS de salão, plissavam saias, faziam vestidos casa de abelhas, pregavam botões, teciam embainhados, ensinavam a dobrar calcinha em formato de flor e eram cozinheiras caras. Dos casadinhos a qualquer coisa. Acostumaram-se a ser empregadas dos sacerdotes, vida quase toda no fogão. Mas se dependessem dos paladares da vizinhança, findariam secas.
VI AINDA, POR TEMPOS, o capelão que as enxotou. Tido como santo, depois a rua ficou sabendo que havia das manias de fazer os meninos cheirar-lhe a batina. Gostava também de tirar retratos dos afilhados e fazer capitão. Paróquia do Alto do Cruzeiro. Foi corrido de lá, banido das ordens e armas. Caridosas, Felicidade e Branca não se importaram em acolhê-lo no salão.
MÃOS MACIAS, COMEÇOU lavando os cabelos das freguesas na cuia e balde. Depois pia. Já havia além de nós, gente de outros cantos. Mamãe sempre as tangia pra lá. O ex-religioso deixou o cabelo crescer, passou blondor nas pernas e braços e ficou encarregado de aplicar banho de lua na cotrovias. Só não fazia depilações. Engüiava horrores e por pouco não ovulava.
TUDO VERDADE, APAREI costeletas por lá até depois da morte de mamãe. O salão virou atração na Duque de Caxias e chegou a ter uma filial no Porangabuçu. Noviças, padres, pastores evangélicos e seminaristas que eram expulsos das igrejas, por terem a batida fraca, arranchavam-se por lá.
HAVIA UM EX-PASTOR, pedicure de mão cheia, que não arrancava bifes. Uma pluma. Ainda inventava cores, do tipo rosa-calcinha com florzinhas nas pontas. Arrastava legiões. Um ex-seminarista, deportado de Quixadá, que se especializara em fazer escovas e colocar bobbies. Um ex-padre, o the best em fazer bigudinho, relax, mechas, reflexos...
NA BABEL, NOME de rebatismo do gabinete de beleza, aconteceram casamentos e casamentos. Bem antes do futurístico ano 2000. No ano 2000 isso ou aquilo ia acontecer... Lá, 1900 e setenta e pouco, já se era diferente. Nada de perversões, havia até missas clandestinas. Irmã Felicidade casou-se no papel (delas) assim que foram corridas do convento. Não admitia amigamentos. Véu, grinalda, bouquet e até a mãe dela (com um presente para a cama de casal).