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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Matança de índio

Demitri Túlio


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14/10/2006 00:33


DIA DA CRIANÇA. Matei muitos índios, eu, alguns moleques e um batalhão de formigas comandado por mim mesmo. Batalhas homéricas disputadas no oitão de casa e no quintal encantado. E sempre os massacrava depois que inventavam de invadir o Forte Apache fincado na calçada. Ainda bem que a cavalaria dos soldados americanos chegava por lá. Havia corneta e até o Rintintim, cachorro pastor alemão que obedecia em inglês.

FIZ ISSO POR TEMPOS e quando deixava de guerrear no oeste dos Estados Unidos do Porangabuçu, viajava para o Mundo Velho. Lá, armado de metralhadora emprestada de um amigo (sonhava em ganhar uma, mas não havia dindin), ia atrás de matar alemão. Diziam que eles eram do mal. Então eu, as formigas e os soldados norte-americanos-porangabuçuenses, do bem, detonávamos.

BRINQUEI DISSO por anos. E toda vida que meus soldados ou cavalos perdiam as cabeças e pernas, catava moedas perdidas e comprava outros na Lobras ou na bodega de dona Carmelita. Os cavalinhos maguins, brancos, amarelos e verdes, botava no Exército inimigo. Os grandões, pretos, ficavam no meu time. Ah, os índios prisioneiros - que eu ressuscitava todo dia, agora, lutavam ao meu lado.

O FORTE APACHE era motivo de outras guerras troianas. Arengas e cotocos. De comum acordo, eu e o Breno (irmão mais novo) aceitamos ser donos do quartel de madeira batizado de 12 de Outubro. Foi meu pai quem propôs a condição. Ou isso ou nada de presente. Preferimos isso, apesar de não me incomodar com o nada. Por causa dele, na hora que queríamos, dominávamos o bairro.

DE TANTO MATAR índios, eles foram sumindo. Cansaram da brincadeira besta. Quem conseguia sobreviver, começou a fugir das caixas de sapatos. Às vezes, traquinando de outras coisas, encontrava-os escondidos nos capins ou nas roseiras de mamãe. Havia deles, também, enganchados nos fios elétricos da rua. Junto aos esqueletos de 'raias´ e balengo-tengos de qualquer coisa.

DESCOBRI DEPOIS que subiam nas goiabeiras e tentavam fugir de pára-quedas feitos de saco plástico de leite Marangaupe. Antigamente, saía do peito da vaca assim. Encontrei também alguns parcialmente derretidos. Tentavam escapolir nos foguetes feitos de palitos de fósforo e papel laminado. Ou nos balões de jornais e São João. Coitados.

TEVE UM ANO QUE as meninas resolveram julgar os meninos pelas mortes de tantos índios, alemães, bonecas de papelão e as Suzies. Brinquedicídio. Tribunal de quintal e calçada. Quase fomos ao paredão. Boladas de plástico queimando os couros da gente. Por pouco. Ou então, cortariam à tesourinha a bola do racha de fim de tarde. Não. Pedimos penico.

E AINDA BEM QUE tínhamos algumas atenuantes. Nunca matamos passarinhos pra engolir seus corações. Nunca exterminamos calangos, apesar de haver derrubado o rabo de um à baladeira. Nunca estendemos peixinhos para enxugar ao sol. Nunca botamos os betas pra brigar, assim como os galos. Nunca rebolamos nada no mato.

NUNCA FIZEMOS ARMADILHAS pra os grandes cair dentro e quebrar o pé. Nunca mijamos no bicho-de-pé do muro. Nunca larapeamos frutas do quintal de dona Lurdinha. Nunca destruímos as casas de barro dos marimbondos. Nunca chamamos o fulano de mulherzinha... Éramos quase anjinhos. Potoca, nem tanto. Éramos crianças...


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