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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O defeito

Demitri Túlio


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07/10/2006 01:11


EMBEVECIDOS DO SILÊNCIO restavam. Aterrorizados. Medo de olhar de lado e ter de falar. Palavrear o quê? Havia o risco de nem lembrarem do rosto um do outro? E se não disfarçasse a decepção com os pés de galinha dela? E se ela procurasse e não encontrasse o sinal de beleza no rosto, agora redondo, dele?

NEM SE MEXIAM. Insônia e olhares no teto. Vez por outra se viravam pra fora da cama. Não arriscavam o contrário. Nem pensar. Poderiam dar de cara. Marido e mulher. A culpa era da televisão. Pifada, repentinamente, das válvulas ou sei lá do quê. Enquanto durou, ininterruptamente por mais de vinte anos, entreteu. Poupou-lhes, por tempos, de trocar confidências ou conversas bestas.

MAS, AGORA, FINDAVAM ali. Mudos, lacrados. Amedrontados de se encontrar e não ter o que dizer. O constrangimento seria medonho. Casados aos vinte anos, estavam perto da idade dos 60. Dois ou três dias mais adiante... Tentavam e encafifavam por não lembrar nem do aniversário um do outro.

QUANDO NAMORADOS, festejavam qualquer que fosse a besteira. O primeiro beijo, a flor murcha na agenda, o papel gaiato de Ice Kiss, o guardanapo e rabiscos de amor. Casados, o idílio, até que durou. Dia daqueles, porém, amanheceram estranhos (nem notaram) e foram indo. Trabalhar o dia todo-voltar pra casa à noite-comer-ligar a TV-assistir a novela-adormecer-acordar de novo-trabalhar...

FOI O PASSAMENTO da televisão que badalou o sino. Assustaram-se. Quem seria aquele gordo, barriga de ogro, peidorrento, a roncar e tomar gosto enquanto hibernava? E aquela, das celulites empestadas, reclamona, das calcinhas brochantes, dos cabelos pintados de acaju e fios louros? Não se conheciam e tinham medo de perguntar o que faziam ali.

ATÉ PENSARAM EM ligar pra polícia ou chamar pelos filhos. Socorrer-se. Mas foi exatamente um dos rebentos que os removeu da idéia. Tomou a bênção de pai e mãe, fez sinal da cruz, pediu pelo anjo da guarda e se meteu entre os dois. Ah, então deveriam se conhecer. Provavelmente. Mas de onde? Quando?

PASSARAM NOITES em claro. E se faziam de morto quando um ou outro se aventurava levantar pra beber água ou fazer xixi. Olho pouco aberto, apavoravam-se com o estranho ou a intrusa. Enxergavam defeitos, se incomodavam com o jeito de andar e até com a zoada do mijo no aparelho. Ainda bem que o pivete (quatro ou cinco anos) se metera na cama. Quatro ou cinco anos?

DUROU ISSO, QUASE UM mês e dias. Nenhuma palavra, nenhum toque. Quem conseguia dormir, ele ou ela, acordava cedo e se metia rápido em qualquer roupa e desembestava para o trabalho. Não desejavam se cruzar. Falar o quê? Graças a Deus, a televisão tornou. Posta na frente da cama, ligada até pegarem no sono...


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