Demitri Túlio
30/09/2006 03:08

OUTUBRO AMANHECEU choco, dia 1º. Sabia-se que a província cozinhava o galo a espera do ponto bom. Cozeu oito dias. 1930. Panela de ferro, cachaça, talo de mamoeiro, fervura a mil. Amoleceria. Quentura no fogão de aço d´algun Jacarecanga ou fogareiros de qualquer Zé Povinho. Apesar de velho, o bicho ainda açoitava, esporão mortal... Mas a negrada o salgaria... Catisperasse e não cantaria mais de arrochado.
VIU TUDO DO CAFÉ Art Nouveau, praça do Ferreira. Do auto-falante da Casa Kosmos tocou o Hino Nacional. A Revolução getulista, mais tarde descoberta embusteira, estava posta. Gritava na rua. O coreto serviu de tribuna, discursos inflamados. E de frente ao Café Nestlé, uma baixa. Marcaram com sinal de cruz o lugar onde caiu findado o estudante do colégio militar Caio Carlos Ribeiro. Um azar. Tiro vai, tiro vem, abateu o coitado. Aqui jazz a infeliz família do desafortunado...
ENQUANTO BAGULHOU TAPIOCAS, bananas, leites e cafés, testemunhou a carreira que o galo velho deu de Fortaleza. Correu com medo, rinha invadida. Matos Peixoto estava deposto e entronado Fernandes Távora (os Távoras). Os olhos se afastaram da praça, apenas, para ver o alvoroço do canelau. Multidão tangida.
EM DIREÇÃO À IGREJA dos Remédios, esquina com a José Albano. Viram a hora que a mundiça, afogueada por Quintino Cunha, chegou por lá e destroçou a placa de Washington Luís. Agora, ex-presidente. No lugar, improvisaram cartaz com o nome do finado João Pessoa. Nascia, no Benfica, outra rua. Depois avenida. Mais tarde, César Cals de Oliveira, o avô prefeito (os Cals e os Távoras), oficializaria a suposta vontade da arraia miúda empurrada por um punhado de intelectuais.
CRISTA BAIXA, OVOS goros, restou ao ex-presidente do Estado arrastar as asas e dá lavando. Chispou ele e umas aias. Direção à Ponte Metálica. Era fugir pelo mar ou serem pelados na água quente. Depenados. Puxado dos pescoços e amarrados dos pés nos galhos das goiabeiras de quintais. Talho fino de faca amolada no gogó. Vasilha funda e pingadeira. Vermelho.
ANTES QUE SAPECASSEM fiapos de penas (suas) nas bocas de fogo e fogareiros, foi-se. Dia 8 se aboletou no vapor Afonso Pena e rumou ao Sul. O rabo era o rei. Entre os seus, 36 pessoas. No meio dos pé-na-carreira, gente que virou nome de coisas e herói. Vultos!?. Edgar Facó, Natanael Cortez, Vitoriano Borges de Melo, Romeu Martins...
OUTUBROS SÃO ASSIM, feitos de galos velhos, frangos viçosos, rinhas. Raposas e galinheiros. Feitos de Távoras, Cals, Bezerras, Jereissatis, Ferreiras Gomes, Alcântaras, Lins, Lulas da Silva, Alckmins e Zés Ralé... Zé.
(Texto baseado na memória do jornalista Manoel Carneiro Job. A partir do próximo sábado, Das Antigas volta a ser publicada no caderno Vida & Arte)