Demitri Túlio
23/09/2006 01:35

PELA BRECHA DO BASCULANTE espiava-o no mictório. Uma lapa de negro, troncudo. Mãos grossas, pescoço largo e tríceps exagerado. Uma tora. Virou office-boy do homem, um faz-além-de-tudo-e-um-pouco-mais. O boss viu o cafuçu jogando na zaga do Terra e Mar. Back. Também cubava-o empurrando jangada na praia do Mucuripe. Rolos de coqueiro. Inventava de comprar cabeça de cangulo pra caldo, resmungava da memória. Lorota.
APESAR DE ABARROTADO dos músculos era homem bom. Boníssimo, puro das malícias. Entendia, claro. Mas miséria tanta, restou aceitar o ofício no gabinete e dar também de anjo da guarda do vereador. Chiliquento, desmaiava aos fins de tarde após a politicagem. Estresse de araque para ser carregado à Pieta. Uma lady.
FORA AS FRESCURAS e fraquezas forjadas, a cobiça era espiar os subordinados mijando. Luxúria enviesada. De propósito, a cadeira giratória e o birô ficavam de costas para a cortina longa e encarnada. Da cor do carpete e das unhas dos mindinhos dos pés do edil (ninguém sabia). Por trás do pano, o basculante que dava para o banheiro do gabinete. Adorava reter a chave. Não permitia qualquer um. Só os sobresaídos.
OS MIÚDOS, SE TIVESSEM manias de macho (coçar, atoleimar-se com ancas femininas, etc), poderiam entrar e chover. Qualiras, não. Tinha horror das moçoilas de seu naipe. Voyeur, regojizava-se com olhadelas. Ia ao céu, balançava-se. Enlouquecia ao ruído torrencial da urina no poço. Touro. Mas, apesar de quase ovular não suportava ser agarrado por homens. Traumas. Ojerizava a suadeira e a barba por fazer.
MINTO. HAVIA OUTRO prazer. Eram os pajeadores que lhe depilavam o corpinho. Mirrado, quase quebradiço. Um louva-deus. Adorava as pinceladas de mel quente (pelante) e o instante do emplastro fazer a coivara. Sssssssss, aaaaaai! Puro prazer... Não via a hora de encabeludar de novo, quinze em quinze dias. O contorno, retorno, pernas, braços, barba e dorso. Depenada.
HAVIA OS PREDILETOS, mas formava escretes. Aceitava inclusive que fossem matrimoniados. Só não admitia ser traído por outras pacas. Catava, um a um, nos campinhos de areia na periferia. Sábado à tarde e domingo de manhã se metia na carroceria dos caminhões. Porque vereador pela laia do prefeito, oferecia a taça dos torneios. Levava sua graça.
EM NOME DO FERROVIÁRIO escolhia as promessas. Backs, goal keeppers, center forwards (centrefor), center halfs, midfield... Ficava de olho nos shorts atochados. Trochas. Quem não levasse jeito seria aproveitado no gabinete do mandato. Por uns trocados, mundos e fundos. Há 12 anos estava na vereança, nem pensava na Assembléia. O subúrbio lhe cabia melhor.