Demitri Túlio
05/08/2006 03:39

Caros leitores,
USAREI HOJE O ESPAÇO da coluna para lhos fazer um cortejo. Quem ainda não tiver programa definido neste fim de semana, sugiro que dê um pulinho ao Teatro Arena Aldeota e aceite convite para uns minutos de "paleio" com dona Peraldiana Pimenta e coronel Puxavante. Casal das brenhas dos Inhamuns que, vez por outra, tornam a "Furtaleza". Isso, me acreditem, desde 1919.
NÃO SE ARREPENDERÃO os convivas. Penso assim, explico, porque alguns dos dez leitores de Das Antigas dizem gostar do que escrevo pelo motivo de havermos Fortaleza e prosearmos no cearencês. E é o que encontrarão por lá. Garantido por Haroldo Serra, assinado embaixo pelo finado Carlos Câmara e testemunhado por mim.
FALO DO CASAMENTO DA PERALDIANA. Burleta em cartaz desde "ontonti". Estava lá e dei boas gaitadas com tanta "marmota". Mas coisa "arrumada", bem ensaiada e cantada sem ser chata e gastar as paciências. Tem até bandinha de coreto, tocando pros peneirados. Maxixe, rumba e outras modas na Praça do Passeio Público, desde outrora e eterna "feira dos..."
PRIMEIRO, VI QUE O PRAZER que tenho pelo teatro continua "viçoso" e me "aperreia" dos comichões. Hão atores que dá gosto experimentá-los em cena. Ricardo Guilherme, pra mim o melhor do Ceará, passeia no palco. Como se estivesse em plena Mororó, em meio ao canelau e ladeado pelos "bestas" da Caio Prado e os bocós da "Carai-pinima".
SEM AFETAÇÕES, RICARDO Guilherme dá cabo à máscara da "veúva" Peraldiana e mostra que o ator radical é versátil. "Tabefe" nas "ventas" dos críticos. Ele canta, dança e suspira no instante que tem de ser. Chama pra si a responsabilidade do espetáculo e divide bem o palco com Lúcio Leon - outro ator detalhista e precioso - que encarna o coronel Puxavante.
PERALDIANA SURGIU DAS MÃOS do comediógrafo Carlos Câmara em 1918 (A Bailarina) e ganhou alma no corpo de Eurico Pinto lá pelos 1919. Um moleque dos palcos do Ceará. No tempo dele, a nenhuma moçoila ou "pomba casta" era dado o "desfrute" de encarnar a personagem. Imagine! Antes lavassem a boca com sabão e fechassem as pernas.
DESBOCADA, VERGONHAS EM BRASA e nem tanto pudorada, Peraldiana sempre teve saco por debaixo das anáguas e dos vestidões de matuta. Mudou o tempo, mas no teatro cearense a tradição cristalizou. Só homem macho (pelo menos de genética!) encenou a personagem a "veúva" assanhada.
POIS MUITO BEM. FORTALEZA vira crônica na dramaturgia de Carlos Câmara. O Casamento da Peraldiana é um bom café da tarde para se degustar com pão molhado e bolachas "fogosa". Depois, entre pitadas retiradas da boceta de rapé e tragos nos cigarros "Acácias", conversar miolo de pote. Fofocar da vida alheia, criticar Papi Júnior e sua Comédia Alta. Tem até dom Hélder Câmara - reparem no Cazuzinha. E um bicha. É! Viado, baita, qualira, pacosa. Lá pelos dezenove era sinônimo de Candoca ou mão de jia. Espia!