Demitri Túlio
15/07/2006 01:41
TANTA FALTA, MEDONHA FALTA. Mierda! Foi depois que o marido findou e as crias viraram anjo. Casa grande cheia de zoadas, gatos, guarda-louças e a mesa grande de comer ao derredor. Décadas atravessadas assim. Entra e sai de conhecidos, goles de conversas com um e outro vizinho. Xícara de açúcar, cumbuca de doce, nesga de bolo quente, costura da vida alheia.
A LÍNGUA, NOS COMEÇOS, emperrava o converse. Mas depois, pegou o prumo e emendava os bigodes com qualquer que fosse o brasileiro. Vindos d´algum lugar do Mediterrâneo ibérico, viraram mascates. Prósperos do dia pra noite. Fartura. Tanto assim que o marido se transformou num barrão. Bácoro a comer amarrado. Tanta banha que diminuíram as fornicações. Vergonhas encolhidas.
GOGÓ DE PAPADAS, passo lento. Miserável igual a esposa. Talvez o pavor de voltar a puxar a cachorrinha e experimentar novamente angu de caroço. Chispa! Morriam de medo da miséria ao pé da porta. O filho mais velho, parido no estrangeiro, ainda pegara as vacas tísicas. Os outros três, não. Houveram das bençãos de nascer na abundância.
POIS. O ESPANHOL, ainda maduro, morreu das gorduras. Tanta, que espremeu o coração e entupiu tudo que havia de veia. Adiposo. Porco branco, enorme, deitado a espera de uma urna que o acomodasse. Coube, mas não se enfiou em nenhum dos paletós. O jeito foi enrolá-lo na cortina puída. Estava morto, mesmo.
DEPOIS DO HOMEM, morreram as crias. Uma a uma. Tísico, outro de varíola, outra de influenza e o último, depois de cortar o pé. Gargalo de garrafa de querosene trincada. Caco de boca aberta à espera de um descalço. Pufo! Deu febre, criou pus, inchou um sapo e se foi.
TANTA FALTA, MEDONHA FALTA. Mierda! Ficou única, casa grande sem zoadas. Outros vizinhos e uns gatos sete vidas. Perebentos, mas a acompanhá-la pelas ruas. Passinhos de quatro, caudas levantadas. Catava qualquer coisa, o que fosse. Percorria léguas tiranas, pra cima e pra baixo. Abirobou.
SENTIA SOLIDÃO DOS SEUS. Um buraco. Do marido barrão, encheu o quarto de lixo. Toda porcaria que fuçava na rua. Tanto, que a porta emperrou. Muito. Depois encheu a cozinha e a sala de jantar. Ah! A sala de jantar era a mais doída. Mesa grande sem zoada. Os almoços, jantares, as merendas do pão molhado no café!
EMPANTURROU O QUARTO da menina e os cantos onde os malinos traquinavam. Havia saudades indizíveis, jornal velho, pedra, bosta, panela, pedaço de carro, resto de sofá, cadeira sem perna, boneca sapecada de sol... Um monturo, fartum, bafio, mofo, catinga. Dormia em vãos da estufa e bodum.
A POLÍCIA BATEU por lá. Risco à saúde pública, ratos, baratas, mosquitos, lacraias. Presa!
- Presa?
- Presa.
- Yo?
- Sim. Pre-sa. Presa...
- Mierda.