Demitri Túlio
08/07/2006 03:10

SONHOU ATRAVESSADO. Boliu-se e revirou-se na cama. Não tornava e nem a esposa o cutucava. Bodejou. Aperreou-se e de repente conseguiu cair da cama. Não quis conversa, pés descalços, peito nu, correu e escancarou a janela. Não se importou com a friagem e foi contar ao vento o passamento. Desde pirralho, alguém o ensinara a contar sonho ruim pra ventania. Sopravam pra bem longe a urucubaca, desterrava. Contou.
ALIVIOU-SE E DEIXOU janela e porta do quarto abertas. Um vento carregava o azar e outro desembestava, casa a dentro, com a sorte. Sonhadeira torta era precedida de algo bom. Cria. Era desses de crer e acender velas. Deitou-se e, em concha, abraçou por trás a mulher. Sentiu-a fria, gélida.
VOLTOU À JANELA e atravessou a madeira entre as alças de ferros. Fechou. Meteu-a debaixo da Chenille e jogou a colcha por cima das ancas da fulana. Quartuda. Quis inventar coisa, mas a mulher não respondeu. Fumegou de novo. Ela nem se mexeu. Passou a mão por ali e estranhou a frieza. Era calorenta.
O VENTO NÃO HAVIA se ido com o pesadelo. Quando chegou na janela não tinha mais nada pra levar. Só a tristeza do viúvo. Amofinado, pelos cantos procurando dona Ana Bela. Na noite da despedida, a viu no sonho picada por cascavel. No alumbramento, havia um ninho das víboras no colchão. Rasgou na faca e mandou atear fogo. Desespero.
TORNOU A CASAR. Maria Morena o fez tirar o luto. Anos depois. Mas uma fita preta no bolso ainda punha pela outra. Não esquecia a finada, mas nem por isso amava menos a de agora. Plenamente. Encantados das coisas e das crias que pariu.
NA ÚLTIMA BARRIGADA, o vento bateu-lhe à janela novamente. Adormecido, ensonhado, gritava mas não ouvia o próprio berro. Quando voltou, era Maria Morena que havia tomado rumo. A menina escapou, Ana Clara das Vitórias. Adorava portas abertas, quintais de vento. Redemoinhos e caçar sacis. Ele a acompanhava.
ANTES DE SE IR, acasalou-se com Otília. Peitos fruta-pão de vez, rosa chá. A venerava também, mas não fazia cerimônia de declarar amor às findas. Diferente das mortas, encafifava. Não achava ruim, mas não fazia gosto. Parideira, emprenhou do velho até quando deu. O sonhou veio pra ela.
DIFERENTE DO HOMEM seu, esperava alumiar o dia. Abria as portas e soprava pra espantar o assombro. Mas não foi possível. O gruir gasguito despertou as crias e a criadagem. Ele havia pegado o beco. Parecia sorrir, morrido no sono e talvez sem dolores.
OTÍLIA NÃO PASSOU o viço adiante. Pôs luto e recusou deitar-se com outros. Murchou velha e descobriu no fim de tudo que um câncer corria solto. Era capaz. Só se despia para o finado e não admitia ficar nua nem pra doutoras fêmeas. Mas viveu o quanto pôde. Lutou contra a morte, não porque havia medo da cascavel. Não.
E SE CHEGASSE POR lá, já estando Ana Bela e Maria Morena? Otília pediu pra voltar.