Demitri Túlio
24/06/2006 02:16

CARO JORNALISTA,
HÁ ALGUMAS SEMANAS, escreveste sobre minha avó e ex-mulher. Diante de tal surpresa queria tecer alguns comentários sobre Janine. Eterna Janine. Não sei por que cargas d´água te interessaste por coisas da vida dela. Minto, até sei. Difícil era não ter alguém curioso em seu jeito de ir vivendo.
FRANCESA POR NASCIMENTO, veio pra cá corrida da II Guerra Mundial. Foi tangida de Paris, feito bicho, depois da inopinada alemã. Mas era pessoa de viver em qualquer canto da terra, sem choramingas e maldizeres. Não havia sentimento de pertencida. Veio, casou-se com o meu finado avô (depois também fui seu varão) e viveu no Interior até quando Deus concedeu.
PORQUE ESSAS COISAS, o senhor sabe, estão escritas nalguma caderneta sublime. Há de tudo. Até o segundo exato que findaremos. Fechados os olhos, tornaremos, talvez, sei lá onde. Nem me encasqueta. Em todo caso, não vejo a hora de poder revê-la. De reencontrá-la, ainda que esteja ao lado de meu avô.
VI QUE O PREZADO jornalista voltou-se das atenções para um trechinho da vida de Janine. Da maneira despojada, de como se ia e experimentava do açude da fazenda. Pescar, não se banhar. Fazia-se nua, em brancura pura (parece que estou vendo), e lançava-se ao arrasto.
VOCÊ NÃO FAZ DAS IDÉIAS. Quedava-me a espiar a pescaria. Por detrás dos pés de pau, das touceiras de mata-me-embora. Silentes e cúmplices. Vovô não permitia que ninguém usasse do açude, apenas Janine. Nem chegassem perto. A não ser os bichos, que vinham aliviar das sedes ou das quenturas do sertão dos Inhamuns.
EU, SEMPRE ESCAPOLIDO, me punha de atalaia. Bastava escutar que vovó desceria para molhar os pés. E não havia das horas, podia ser qualquer tempo. Chovesse ou fizesse sol. Antes dela, me postava no mato e mudava de posição segundo as mexidas de Janine.
VINHAM PEIXES DE TODOS os tipos. Carás, piabas, tucunarés, traíras e jacundás. Aos cardumes. Sentiam do cheiro, longe. Do vértice despido das intimidades. Prazeres. Vi peixes se contorcerem nas caçarolas de ferro, azeite quente ou banha. Recusavam-se a cozer. Ela estava por perto e alguns deles saltitavam do fogão a lenha.
INDIZÍVEL. CONTO porque testemunhei e fui seu varão. Depois de tempos, cerrados os olhos de meu avô, foi que descobri por que os peixes vinham ter com ela. Ao encontro de suas redes. Prazeres.
UMA VEZ ME ARRISQUEI num mergulho, enquanto ela pescava, e fui arrastado. Mesmo com todos os pudores. Afinal, era seu neto e ela ainda tirava luto. Mas, é o que disse linhas atrás, não havia na senhorinha rasto de pertença. Despertencida de qualquer lugar ou de quem quer que fosse. Fiz-me feliz, quedei-me peixe.