Demitri Túlio
17/06/2006 01:56
NÃO FALTAVA ACONTECER mais nada. A desgraça estava sentada na esquina chupando manga e assobiando pras rabudas e chifrudos acabrunhados. Choro. A seleção brasileira deu vexame e merecidamente levou um pé na bunda dos holandeses. Laranja mecânica. Bem feito. 1974 era outra outra história e 70, passado. Fantasma.
UM CHO-RÔ-RÔ-RÔ BESTA e grudento havia tomando conta das ruas. Idiotice muita. Time ruim não deveria passar nem das eliminatórias. Imagine chegar mais longe. Pau neles, muito. Sem glória e louros, rabo entre as pernas, os vira-latas não mereciam nem ficar na porta do açougue esperando langanhas. Passa, bicho pulguento! Nojentos.
TOCA O TELEFONE no vizinho e do outro lado do aparelho, alguém do necrotério. Gole seco. Além do enterro dos tricampeões na Alemanha, falta o quê? Não! Havia certeza no que estava dizendo? Bem... Por recomendação, meteu-se em uma calça comprida e procurou as chaves do Corcel Fox. Amarelo, meia vida. Por aqueles dias, esquecera de botar solução na bateria e fedeu a cão.
DE CASA PRA PARQUELÂNDIA, bairro do necrotério, era um pulo. Mas pareceu longe. Ainda mais porque não achava as malditas chaves. Era sempre assim. Em cima do buffet? Não. Da arca? Também não. Nos bolsos da calça? Negativo. Da capanga? Necas. Puta-que-o-pariu! Irritou-se ainda mais quando viu a mãe prometendo pular pra São Longuinho. Logo ela!
VIRARAM E MEXERAM e as amaldiçoadas estavam na própria ignição do letreca. Fechado. Só não espumou de ódio porque o arame enganchou rápido no biloto da porta. Sorte. Rasgou os penduricalhos verde-amarelos e meteu os pés para o necrotério. Seria mesmo a irmã solteira que morava com ele? Sabia que a desmiolada havia saído pela manhã. Paria do Futuro. Avisou dos riscos da cidade deixada e dos embriagados em dias de jogo.
ERA ELA MESMO. UMA tatuagem, motivo de esculacho em casa, ainda estava no tornozelo gélido. Pálido. Havia sido atropelada por um Galaxy (Opala?) verde e placa amarela. Depois do jogo saiu chutado e deu cabo a vida da abestada. Chorou contido e experimentou pele morta do canto dos dedos. Pensou. Como iria dizer pra mãe? Acabara de deixar o hospital de Messejana e a cicatriz, do pescoço ao umbigo, ainda estava sarando.
VOLTOU E CHAMOU os outros brothers. Rodeada dos filhos, encasquetou e perguntou pela fulana. Desconfiou de prima. Por incrível que pareça, era a mais conformada. Tinha feito tudo pela caçula. Talvez até mais que para os outros. Rebelde havia dado cedo, não usava soutien, andava de calcinhas com a porta aberta e a mãe tinha desgosto por ser maconheira.
QUANDO BATIA A LARICA (fumou muitas vezes na dispensa) virava a lata de Leite Condensado no bico. Misturava com paçoca e havia da mania de comprar pêssegos em calda. Também se valia das mariolas, suspiros ou marias-moles. Quando misturava fumo com Sangue de Boi, assaltava as caixas de Sonho de Valsa. O irmão dirigia uma kombi da Lácta.
VELÓRIO TROANDO NA SALA, fofoca, cafezinho e biscoito champagne, eis que entra a pirada cantarolando Secos e Molhado. Preta de sol. Susto. A mãe foi a óbito, fulminada. A filha morta estava ali. Vivinha da Silva! A explicar que não se tratava de assombração, nem havia da vocação pra Lázaro. Sentia pela mãe...
"O gato preto cruzou a estrada, passou por debaixo da escada e lá no fundo azul..."