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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O tronco do jatobá

Demitri Túlio


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10/06/2006 04:13


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HOJE, CARTA DE UMA LEITORA. Postou-me pelo correio e tudo. Selo, remetente, destinatário e um papel fino. Escreveu duas laudas e deixou beijos antes de assinar. Há também um perfume nas folhas pautadas e letras bem desenhadas. Observou na lateral que só tirava "ótimo" nos cadernos de caligrafia. Dever de casa.

BEM, A CARTA. ANTES, um porém. A chamarei, pois, de Maria das Graças e da Procura do Amor Eterno. Ela me pede isso. Remeteu-me, assim, uma nesga de seu diário amoroso. Confissões feitas ao pé de sapoti e ao pé de manga rosa do quintal. Escreveu...

PREZADO COLUNISTA, GRAÇAS a Nossa Senhora do Bom Parto (tenho certeza que ainda me valerei dela) moro em uma casa que ainda resta quintal. Pois se contrário fosse, quem ouviria meus bodejados? Não sou chata. Não. Apenas me sinto só. E já cheguei a pensar, um dia, que viver somente única, bastava. Conversas!

DESCULPE ESCREVER ASSIM e ir falando sobre coisas minhas, que com certeza não te dizem respeito. Mas nem o sapotizeiro e nem o pé de manga me respondem. São gentis, me escutam, reconheço. Mas não vão além disso. Não precisa responder também, mas se o fizer exultarei. Peço, cordialmente, que a remeta pelo correio...

AH, O CORREIO. FICO NUM pé e noutro quando o carteiro aponta na cabeceira da rua. Faz-me bem só em vê-lo. Ânsia de que saque da bolsa, notícia boa pra mim. Coisa que há tempos não provo do gosto.

A ÚLTIMA CARTA FOI HÁ DEZ anos. Falo de epistola amorosa, de textos que fazem bem ao dia e devem ser lidos e relidos. Sempre há algo que não percebemos da primeira vez e saltam aos olhos quando volvemos a decifrá-la. Adjetivos bons - sabor de bombom Sete Belo, pirulito Zorro, sorvete de menta flocada. Encontros indizíveis. Idílio que me faz chorar, achando que um dia regressa. Ou virão outros no moldes do tal que escapole.

FRESCURA MINHA. NÃO SE FREIA a vida sonhando com quem ficou de vir e nunca mais deu o ar da graça. E se morrermos amanhã? De que terá adiantado esperar pelo cavalo azul e o homem dos nossos desejos? Nem mel, nem cabaça.

NÃO QUERO DIZER com isso que sairei por ai, à cata de qualquer coisa ou permitindo generosidades a quem não mereça. Não. Mas está complicado acordar sem um alguém. É, achei que não sentiria falta de nada e agora, por vezes, me quedo a carpir saudades até das arengas bestas. A tolha molhada não estendida, a cueca velha nada excitante, o desleixo com as coisas de casa... E de ouvir as suas também... Da calcinha de meia marrom, do sono além da conta...

MAS VIREMOS O DISCO. A partir de agora, minha vida vai mudar. Tenho certeza de que meus problemas acabaram. Com a lasquinha do tronco de jatobá (vulgo pau de Santo Antônio) e a Imagem que minha amiga Rita importou de Barbalha para mim, as coisas vão melhorar. Pra minha situação se resolver mesmo, só apelando para Antonio... Já comecei minha trezena! Dessa vez "ele" não escapa. Risos.

SIM, COMPREI UMA muda do pé de jatobá em Barbalha e pedi para benzer na igreja, aqui, do Otávio Bonfim. Vou plantá-la no quintal. Entre o pé de sapoti e o pé de manga rosa. Quem sabe, assim, arranjo um homem (ou mulher) para o próximo dia dos namorados!

Beijos,
Maria das Graças e da Procura do Amor Eterno


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