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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Crônica do Saci

Demitri Túlio


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30/08/2008 01:58


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QUANDO MENOS ESPEROU, estava com 60 anos. Aos 30, o pneumologista havia dito que se não deixasse o cigarro morreria seca e tossindo trovão. Foi por isso que deixou a piteira e se viciou em mascar cravo e gengibre. E mulher, havia avisado o médico, tinha um organismo cheio de trique-triques e delicadezas.

MAS NÃO TINHA PACIÊNCIA, por exemplo, para ficar apalpando os peitos diante do espelho grande do quarto de casados. Mesmo com a insistência do médico, resistia. Mais por medo do que por indiferença. Toda vida que se tocava, havia a sensação de encontrar algo estranho nas mamas. E corria, desesperada, ao doutor que espantava os grilos. É que a bisavó, a avó e a mãe haviam experimentado amargor.

ESTAVA PERTURBADA com o tempo. Mais rápido que uma infância e inesperado que nem um casulo. Afogueava-se de estação em estação, ano após ano, numa velocidade redemoinho e escandaloso feito Maria Fumaça. Quando menos percebia, já havia amarelo nos novembros de ipês. Outro dezembro, puxa vida! E ia se guiando também pela procissão das formigas. Hora as via carregando folhas e grãos e, de repente, desapareciam por causa da chuvarada.

E COMO PENSAVA ASSIM, chegou um tempo que passou a abominar todos os álbuns de fotografias que aprisionou durante a vida. Tanta memória encafiotada ali! De quando era noviça, do dia que beijou um fulano pela primeira vez, o vestido de casamento, a mãe que ainda estava viva, a barriga de grávida... O cachorro que viveu 25 anos, a viagem que fez a Catolé do Rocha... A filha que foi para os EUA e nunca mais voltou...

A CIDADE TAMBÉM LHE dava notícia da passagem. O que fizeram com a Santos Dumont?! Dos casarões de quintais e varandas de madeira? Das pessoas, do leite e do pão que colocavam nos batentes e ninguém afanava? Uma placa tinha sido posta na casa da família de seu Aderbal Freire Pai, na esquina com Gonçalves Ledo. Viraria mais um prédio de elevador... Que tempos! Seu Aderbal era um senhor gentil que possuía uma escada repleta de Barricas, gatos de Ademir Martins, pescadores de Cela e um filho que virou artista...

OS PRÉDIOS, UNS VIZINHOS aos outros, espantaram o que tinha de sacis. Sim, existiam aos montes! No meio do cajueiral, goiabeiras e mangueiras. Disputavam peraltices com a pirralhada solta na areia branca de sítio ou mar. Na buraqueira. Cada menina ou pivete era protegido por um saci e uma árvore em vez de um anjo da guarda. Cortaram tudo, rasgaram as poesias...


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