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Crônica

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A mulher de bata

Simone Pessoa
Especial para O POVO


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19/07/2008 14:56


Lá vai ela envolta apenas numa fina bata azul se dirigindo para a porta negra com a inscrição "Entrada Restrita". Pensa em desistir, dá meia volta. Mas, a prudência prevalece. Histórico familiar preocupante: vários casos na família. Alerta - seu e dos médicos! O jeito é se submeter à situação. Se outras mulheres assim se subordinam, quem seria ela para se rebelar? Respira fundo e entra.

As paredes cinza claras contrastam com o chão em granito escuro na sala pequena super resfriada pelo ar condicionado. No centro, um equipamento imponente com hastes metálicas, bandejas de acrílico e botões diversos lembra uma guilhotina eletrônica. Talvez um robô ou um dragão à espreita - a aparente imobilidade parece esconder o momento fatal do ataque. Sozinha, no canto da sala, a mulher de bata aguarda tensa e resignada.

Chega a encarregada do exame: uma mulher de cara amarrada e olhos gélidos. Sem olhar para a mulher de bata, inquire dados de identificação. Terminada a burocracia, aciona o monstrengo e ordena que a mulher de bata se aproxime. Ciente da fragilidade da paciente, a encarregada impõe seu poder de ocasião em movimentos ríspidos e impacientes sincronizados com o equipamento. Insegura, a mulher de bata se torna presa fácil de conduzir e, nas mãos da encarregada, é manipulada física e mentalmente. Seu corpo é guiado, puxado e encolhido beirando a aspereza. Agora a manipuladora exige imobilidade total da mulher de bata que se submete, mal respira. Sente que, naquele momento, seu destino está nas mãos do algoz. Entrega-se. Faz e desfaz as posições esdrúxulas comandadas pela tirana. Apesar dos esforços, a mulher de bata é repreendida como se criança fosse. De fato se torna criança indefesa naquele instante. A encarregada tem o domínio. E, por isso, o exerce no extremo do aceitável. Não puxa a orelha da criança, mas lhe impõe castigo junto ao aparelho horrendo e doloroso. E o tempo parece cúmplice. Os segundos e minutos seguem lentos, quase parando...

Mas, como tudo de bom e de ruim tem que acabar em algum momento, o procedimento é concluído. Passou no teste, a mulher de bata! Graças! Agora, se sente um tanto mais forte para enfrentar outros dragões, que por certo virão.


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