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Crônica

CRÔNICA

O jardineiro executivo

Simone Pessoa
Especial para O POVO


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06/09/2008 18:42

Da janela indiscreta de meu apê, tenho observado um homem no edifício atrás do meu. Não sei precisar a idade dele, mas deve ter entre 40 e 50, pelos seus movimentos e pelas roupas que usa. Têm dias que está de bermuda e tênis - deve fazer academia ou caminhar na praça do bairro. Em outros dias aparece de roupa executiva, inclusive com gravata de bom gosto.

É comum vê-lo falando ao celular, momento em que percebo sua desenvoltura. Às vezes sorri e mostra-se amigável com o interlocutor. Mas, em outras ocasiões, parece esbravejar. Tenho dó de quem está do outro lado da linha... Vejo-o sempre lendo jornais e revistas. Claramente tem a preocupação de se manter atualizado. Também utiliza intensamente o computador, o que me reforça a idéia de se tratar de um executivo.

Contudo, o que mais atrai minha curiosidade - espero que ele ainda não tenha percebido a bisbilhoteira que sou - é o cuidado e o carinho que dedica às suas plantinhas. Na varanda de seu apartamento, ele mantém um pequeno jardim que se expande dia a dia. Toda manhã, antes mesmo do café, ele vai dar bom dia às suas orquídeas, petúnias e aos seus antúrios, com quem conversa e, se não me engano, acaricia. Depois que recolhe cautelosamente as folhas secas, rega as plantinhas. Às vezes, mexe nos jarros, põe areia ou estrume. Embora eu não esteja tão próxima, dá para sentir sua alegria e seu prazer. Finalmente, fita as plantinhas longamente e se despede.

Quando os nossos horários de almoço coincidem, observo que ele aproveita para jardinar, mesmo que seja por poucos instantes. À noite, no retorno do trabalho, vem novamente visitar o seu singelo paraíso. Talvez seja sua forma de buscar a paz e o relaxamento que não deve encontrar no mundo lá fora.

Hoje pela manhã, ele notou - e eu também - que brotou uma nova orquídea amarela. Sua alegria foi visível. Chegou até a fotografar o rebento. Também tive vontade de fotografar, mas receei que a qualidade da foto não ficasse boa devido à distância. Ademais, correria o risco de ser flagrada pelo jardineiro executivo, o que impediria minhas futuras incursões abelhudas.

Assim, vim me refugiar no meu quarto e pus-me a escrever esta crônica, mas antes olhei pela janela para me certificar de que não havia alguém me observando...


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