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Concidadania

CONCIDADANIA

De guerras e adiamentos

Valdemar Menezes


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08/03/2008 15:19


Os países latino-americanos deram uma lição ao mundo ao resolverem de forma pacífica o grave conflito envolvendo países da região amazônica. Na reunião da Cúpula do Rio, na Republica Dominicana, nesta sexta feira, inimigos figadais terminaram trocando apertos de mão e abraços. Foi o que ocorreu entre o presidente Rafael Correa, do Equador (agredido), e Álvaro Uribe, da Colômbia (agressor), e entre este e Hugo Chávez. Todos - inclusive o próprio Uribe - reconheceram que a soberania equatoriana foi violada. A tentativa de importar a doutrina Bush ("ataque preventivo") foi repelida por unanimidade (até pela Colômbia, que reconheceu o erro). A promessa de não mais se utilizar esse recurso, na região, veio acompanhada da contrapartida: nenhum país dará apoio a insurgentes de outro país vizinho permitindo que se instalem em seu próprio território. Apenas serão aceitas mediações externas para ajudar a reconciliação entre as facções em luta. Talvez, Uribe tenha conseguido justamente o que queria. Ele parecia muito satisfeito com o resultado. Por seu lado, Chávez, Correa e Ortega também aparentavam satisfação. Parece que todos saíram ganhando. Aliás, só em não haver guerra já foi um ganho e tanto. De rebarba, houve a sugestão para a Colômbia aceitar a intermediação da Cúpula do Rio para resolver seu problema interno, através de um grande acordo com os grupos rebeldes.

DECISÃO ADIADA
O pedido de vista, feito pelo ministro Carlos Alberto Menezes Direito, no caso do julgamento do STF sobre o uso de embriões humanos para a pesquisa de células-tronco foi um alívio (embora haja pouca ilusão sobre o voto da maioria, sobretudo agora que têm os holofotes da TV). Valeu pelo menos para os segmentos que torcem por uma posição favorável à defesa da primazia da vida frente aos interesses da indústria médica e ao racionalismo um tanto quanto materialista dos que não aceitam a sacralidade da vida. O voto do relator Carlos Ayres de Britto alinha-se com esta última posição, que se apresenta como "não-obscurantista". Independentemente de que a concepção se dê "in vitro", ou não, na primeira célula resultante da fusão do espermatozóide com o óvulo já se encontra o DNA com todo o programa que faz daquele ser uma pessoa singular, como ficou comprovado na decodificação do genoma humano. Ademais, o fato de o útero da mulher ter um papel decisivo na formatação daquele ser, não escamoteia a realidade de que se trata de outro indivíduo, diferenciado da mãe, cuja vida não mais pertence a esta. Ora, se a decisão de matar aquela vida não é lícita para uma mãe que esteja comprovadamente envolvida em circunstâncias difíceis, o que não dizer, então, do processo de criar um embrião somente para produzir células-tronco e depois jogá-lo no lixo? Não vale o argumento de que se trata de "sobras" de embriões que serão descartados. Assim também raciocinavam os nazistas: as cobaias humanas utilizadas por eles iriam morrer, de qualquer forma, nos fornos crematórios, assim, pelo menos, contribuiriam para o avanço da Medicina - diziam. O mais correto não deveria ser parar com o armazenamento de embriões?

TRASTE
O retrato mais fiel de como os pobres são tratados, neste país, foi exposto esta semana pela mídia: o transporte do cadáver de um catador de lixo no carrinho utilizado por ele no seu ofício. Ele morreu à míngua e seus amigos não conseguiram nem sequer que viessem apanhar o seu corpo. O catador findou na miséria em que sempre viveu: como um traste de monturo. É claro que o episódio servirá à hipocrisia da disputa eleitoral, mas é um tapa no rosto da sociedade, sobretudo, dos poderes públicos, que têm o dever constitucional de zelar pela saúde e dignidade dos cidadãos menos afortunados. Ora, uma elite capaz de tratar o embrião e o feto como coisa, e não como um ente humano, por que iria agir diferente com um "João-ninguém"?

AMC
Os guardas da AMC quando se deparam com um engarrafamento, ao invés de darem prioridade à regularização do trânsito, preferem, primeiro, multar carros estacionados irregularmente, sem se importar para a aflição das pessoas presas no caos. A lógica seria priorizar a normalização do trânsito (e assim evitar batidas, acidentes com vítimas, brigas entre motoristas, etc.) só depois cuidar das multas. Ou fazer ambos ao mesmo tempo (basta designar um membro da equipe para isso, enquanto o outro multa). Mas, não o fazem: todos ficam concentrados apenas em multar os carros estacionados irregularmente. É essa a orientação dada pelo órgão aos seus funcionários? E o pior: se algum motorista preso no engarrafamento reclamar da inversão de prioridades é multado por pura retaliação. Inventam uma infração qualquer.


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