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Carta do Dia

CARTA DO DIA

Contaminação

Kitah Soares
31 Out 2008 - 00h23min

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"Naquela primeira vez, quando o escorpião me picou, fiquei doida. Eu sabia que era venenoso, desconfiava até mesmo que fosse letal, mas nunca imaginei a morte que adviria daquela primeira picada. Morte lenta, insatisfatória, necessária. A cada vez que mais veneno era inoculado dentro de mim, mais eu queria morrer. De novo e de novo. Eu tinha medo. A razão dizia para fugir, me afastar, gritar, mas onde a força? Uma vez picada, picada para sempre. Tensa, paralisada, acabei por agir em sentido contrário: soltei o corpo e me coloquei na posição certa. Pernas largadas, afastadas em ângulo, braços esquecidos, olhos fechados. Não esperava, não poderia imaginar os longos espasmos, violentos, repetidos, o veneno sem antídoto. O único remédio que talvez surtisse efeito seria o pensamento, a razão, o bom-senso. Mas nada disso parecia funcionar e eu me encolhia e me alongava, oferecia o corpo, não resistia..." (Jeanette Rozsas - continua amanhã)

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