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Os 100 dias para o (re)começo e o darwinismo econômico

Ana Cristina Cavalcante
15 Nov 2008 - 14h34min

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Na sobrevivência dos indivíduos favorecidos,
durante a luta constante e recorrente pela existência,
vemos uma forma poderosa e incessante de seleção.”

Charles Darwin

Washington é o centro das atenções, desde ontem. Lá, está reunido o grupo dos países mais ricos do planeta, das nações emergentes e a União Européia - que formam o G20. Querem descobrir quais rumos oferecerão à economia mundial. Independente das soluções sacadas das mentes dos líderes da retomada, vale a reflexão: a economia vive ciclos e as crises funcionam como uma espécie de teste de aptidão. Se é assim, o que diria Charles Darwin sobre o rescaldo do tsunami financeiro?

É provável que Darwin, dono da explicação mais categórica sobre o surgimento dos humanos neste planeta, dissesse simplesmente que os melhores sobreviverão. Sem afrontar os que crêem noutra versão para a clássica “de onde viemos?”, é possível transportar a teoria darwinista para evolução dos mercados. Como metáfora e na mesma linha do economista Eric Beinhocker: “A economia funciona como um sistema adaptativo complexo que
opera segundo a evolução biológica de diferenciação,
seleção e multiplicação”.

Desde que um observador atento rompeu o “feitiço” das tulipas (o efeito manada do século XVII e considerada a primeira crise do capitalismo), ao alertar que uma flor não poderia valer milhares de vezes mais que outros bens, o sistema financeiro vem melhorando, a cada crise. Ou adaptando-se...

Do crash dos anos 1930, tiramos as lições do New Deal. (o embrião do que viria a ser o Wellfare State - no qual os governos buscam meios para garantir o bem-estar social). Nos 90, começamos a surfar a onda de crescimento da globalização, sem restrição alguma sobre a excessiva desregulamentação do mercado - que, agora, vimos ter efeitos colaterais. Mesmo com o apagão do petróleo, na década de 70, aprendemos que é preciso buscar formas alternativas para alimentar a engrenagem econômica.

As negociações do G20, certamente, resultarão num capitalismo diferente. Humanizado, como propõe o presidente Lula? Difícil arriscar. Se o evolucionismo de Darwin funcionar de novo, quem sabe? Nicolas Sarkosy, chefe de Estado francês que está à frente da presidência rotativa da União Européia, propõe prazo de 100 dias até que uma nova cúpula seja definitiva quanto às mudanças. Até lá, a Coluna sugere que todos aproveitemos o privilégio de assistir a História acontecer.


ECONOMIA REAL

Europa propõe menos protecionismo (!)
A nova ordem mundial não terá apenas um novo Bretton Woods. A integração regional também poderá ser uma via rápida para a economia reencontrar o rumo, quando o vendaval financeiro passar. Parte fundamental da solução da crise está na contribuição que os novos players do mercado têm para dar. “Como resolver a crise sem China, Brasil ou Índia?”, propõe o embaixador da União Européia, João Pacheco.

Em entrevista à Coluna na última quarta-feira, em Salvador, o diplomata português avaliou a feição do capitalismo que temos hoje e aquele que pode surgir, depois de tamanha turbulência. Trata-se, diz, de um modelo já vivenciado por seu próprio continente. A União Européia, bloco econômico formado por 27 países, dos quais 15 já utilizam a moeda única (o euro) . “Os países emergentes têm que estar associados aos blocos. É hora de reforçarem sua participação nessa ordem de integração”, disse. “As soluções precisam ser coletivas”, completou ao tempo em que reforçava o discurso europeu dos últimos dois meses.

E o Mercosul? Estaria preparado para ser parceiro da União Européia? À provocação da Coluna, Pacheco responde com tranqüilidade: “Está, sim. Mas não devemos utilizar o mesmo critério para os dois blocos. A União Européia tem 50 anos!”, observou. É verdade. O Mercosul ainda não chegou à maioridade. Foi criado em 1991, com a assinatura do Tratado de Assunção, e precisa terminar o seu rito de passagem de união aduaneira para bloco econômico. O fato é que a crise merece uma resposta e ela pode ser dada pela consolidação da integração regional. “Essa resposta é menos protecionismo”, surpreendeu João Pacheco. Ótimo sinal... Vindo nas palavras de um europeu.

Pensamento econômico
“A economia é uma maravilha de complexidade. Mas ninguém a concebeu e ninguém a coordena”

>> Pensamento do economista Eric Beinhocker, publicado no seu livro The Origin of Wealth: Evolution, Complexity and the Radical Remaking of Economics, de 2006

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