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Bolsa S/A

Água mole em pedra dura...

Ana Cristina Cavalcante
01 Nov 2008 - 18h06min

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Cenário

As emocionalidades do mercado financeiro estão batendo na porta da economia real. Depois de pouco mais de dois meses de histeria absoluta, começa a sacudir a poeira enquanto varre a sujeira para debaixo do tapete do setor produtivo. Imprimiu tamanha paranóia a todos os agentes econômicos que conseguiu transferir sua instabilidade para a engrenagem que gera emprego, consumo e produção.

A Coluna já disse algumas vezes, mas não custa repetir: o papel do mercado financeiro está em capitalizar o setor produtivo e proporcionar-lhe liquidez. Não é pouco! Essa função é vital para o crescimento das nações. Especular está no jogo, é permitido; só não faz bem - a não ser a quem especula. Contudo e a despeito da grita generalizada, o mundo não vai acabar. Muito menos, o jogo especulativo.

Segundo o operador sênior da TOV Corretora, Décio Pecequilo, o clima de pânico só traz perdas. “É nítido que vivemos um ano complicado, mas aprendi que dias melhores virão e que o pessimismo não contribui para o sucesso no mercado financeiro”, disse, por e-mail, à Coluna.

Pecequilo, que trabalha na Bolsa há 40 anos, também tem ressalvas às comparações alarmistas. “Muitos dizem que nunca viram uma crise igual. Não concordo. A história mostra que este ano não é o pior de todos os tempos”, rechaça. Como exemplo, cita as crises de 1987 e 1990, quando o índice Bovespa (Ibovespa) caiu , respectivamente, 71,99% e 72,73%.

Para o analista, é preciso ir além dos números e observar o curso histórico. “O mais importante não foram os recordes negativos e sim os anos posteriores, quando foram registradas as maiores altas da história da Bolsa mostrando que, após as turbulências, o mercado se recupera de forma agressiva. Foi o que aconteceu em 1988 e 1991, anos de altas de 151,14% e 288,63%”, informou o operador, do alto de sua experiência.

Este ano - até outubro - , as perdas do Ibovespa rondam os 50%. “Algo distante dos piores índices históricos. Isso demonstra que sempre sairemos do fundo do poço”, projeta Décio Pecequilo. Viram?! Os dados não param de rolar e são eles que movimentam o mercado financeiro.

Para que a economia real não pague a conta que não fez, cada um de nós precisa dar a sua contribuição. E isso não significa ir às compras irresponsavelmente, repetindo o surto ao inverter apenas o sinal para positivo. Também não é brincar de estátua até “a crise passar”. Basta levar a vida; não estagnar; seguir com os planos. Porque se nós pararmos, aí sim, a economia pára junto. Na paralisia é onde a recessão se dá. Nem um minuto antes.


CAIXA PRETA

Desde junho deste ano, as reservas internacionais brasileiras superaram a barreira dos US$ 200 bilhões. Num país onde essa poupança já bateu o piso de menos de US$ 10 bilhões (a última vez que esteve abaixo desse patamar foi em 1987), crescimento superior a 20 vezes é algo para se pensar. Na prática, ter esse colchão de recursos assegura proteção contra crises. No Brasil, está funcionando assim e um exemplo disso é o câmbio: quando o dólar sobe muito, o Banco Central entra vendendo moeda americana para aumentar a oferta e, conseqüentemente, baixar o preço. O mecanismo é simples - como tudo em economia, a despeito das disposições em contrário. Vamos abrir a Caixa Preta para saber um pouco mais sobre as reservas internacionais do País.

Reservas internacionais são os depósitos em moeda estrangeira dos bancos centrais e autoridades monetárias. Podem estar em dólar, euro, libras ou iene, só citando algumas. São compostas por moedas que entram no país pelas exportações, aplicações financeiras e compra direta realizada pelo Banco Central.

No caso brasileiro, as aplicações das reservas acompanham o perfil da dívida do País. Por isso, a maior parte está em dólares. Numericamente falando, 75% das reservas - ao todo, US$ 152,8 bilhões em títulos do governo dos EUA. Outros US$ 24,7 bilhões estão em entidades supranacionais - a principal é o BIS (o banco central dos bancos centrais). Mais US$ 9,3 bilhões estão em agências governamentais, entre elas o banco alemão de investimento KFW (que, por enquanto, não quebrou e nem se ouviu falar que corra risco). Há ainda US$ 16 bilhões aplicados em euros - a maior parte em títulos dos governos europeus (US$ 13,6 bilhões) e US$ 894 milhões em ouro. O restante é usado em aplicações que podem ser resgatadas em um dia (o overnight), para dar liquidez às reservas. No quadro, algumas das maiores das maiores reservas internacionais. O ano base é 2008.

País - Reserva

República Popular da China - $ 1,808 trilhão

Japão - $ 1,008 trilhão

Rússia - $ 550 bilhões

Índia - $ 301 bilhões

República da China (Taiwan) - $ 278 bilhões

Coréia do Sul - $ 262 bilhões

Cingapura - $ 172 bilhões

Hong Kong - $160 bilhões

Alemanha - $ 147 bilhões (Janeiro)

Estados Unidos - $ 70,825 bilhões (outubro)

Fonte: Bancos Centrais/Autoridades Monetárias - web


PENSAMENTO ECONÔMICO

"Mas somos medo e desejo"

Trecho da letra de Nelson Motta musicada por Lulu Santos, em “Certa Coisas”. Usado informalmente pelo presidente da Apimec-Nordeste, Raimundo Porto Filho, como analogia à expectativa que muda drasticamente os humores dos mercados, derrubando Bolsas, depreciando moedas e atingindo os motores da economia real.

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