Bolsa S/A
BOLSA S/A
O touro tombou na esquina
Ana Cristina Cavalcante
04 Out 2008 - 15h47min
CENÁRIO
A crise americana traz à tona aquela que é, talvez, a mais importante dicotomia da vida moderna. A estreita relação entre mercado financeiro e economia real. Os americanos fazem uma ótima analogia: Wall Street e Main Street. A primeira é a rua de Nova York, que abriga o coração do sistema financeiro mais importante do mundo; e a segunda, numa tradução literal, é a rua principal, encontrada nas pequenas cidades e, também, na Big Apple. Ou seja, o lugar onde se vai para consumir. Main Street está para a economia real do mesmo modo que Wall Street está para o poderoso segmento formado por bancos e Bolsas. Uma movimenta, à mão, a engrenagem econômica; a outra fertiliza o dinheiro e o faz crescer in vitro.
E qual é, afinal, a responsabilidade destas vias econômicas no caos que se instalou nas últimas semanas?
No cenário de instabilidade que atingiu os mercados por causa do subprime (o crédito de altíssimo risco fartamente distribuído aos americanos), podemos dizer que o problema é de Wall Street... O (re) financiamento fácil, à mercê da mão invisível da auto-regulação, criou as condições para uma farra de crédito capaz de derrubar, sem piedade alguma, o touro - símbolo da força do sistema financeiro dos Estados Unidos. Tombado e sem a peculiar pretensão que lhe distingue, recorre agora à generosidade de um governo ideologicamente avesso às intervenções estatizantes.
A despeito da essência liberal, o socorro (paliativo) veio, mas não resolveu. Os mercados permanecem em estado de tensão. Por que? Simples. É preciso ir além da compra de créditos podres (aquelas hipotecas tomadas e não quitadas, que voltaram para os bancos sob a forma de residências desvalorizadas e encalhadas). O sistema não pode prescindir de controle. Para evitar novas farras movidas à muita ganância, há que ser estabelecido um novo padrão. O touro perdeu a credibilidade e, por isso, ninguém quer mais ir a Wall Street. É que o dinheiro in vitro não sobrevive fora da estufa e à luz do sol.
A rua dos negócios precisa sanar suas dificuldades, sob pena de a rua do consumo também sofrer as conseqüências de uma economia que não se move. A esquina entre Wall e Main é o crédito. Mas aquele que irriga o setor produtivo - o varejo, a indústria, o agronegócio... O crédito que gera renda não só para os megainvestidores da Bolsa e emprego restrito aos operadores de corretoras. O mercado quer (e precisa) da liquidez que fortalece a máquina e a faz funcionar. Porque a conta da crise não pode ser dividida por quem não participou dessa especulação irresponsável. Até parece que, lá na terra do Tio Sam, esqueceram que nós, as pessoas que estão no meio desse turbilhão, somos as mãos que movem a fantástica fábrica que é a economia real.
PENSAMENTO ECONÔMICO
Placa de protesto, em Wall Street, esta semana. Nos dizeres traduzidos:
“Lucros privados.
Perdas públicas.
Mercado Livre?”.
CAIXA PRETA
Mitos e verdades sobre a crise
"A economia mundial caiu junto com o subprime."
– Para ter certeza que a economia ainda não está desabando com a lambança do crédito fácil americano, basta responder com um categórico “NÃO” a pelo menos cinco das perguntas a seguir:
1) Você já perdeu o seu emprego?
2) O seu vizinho já perdeu o dele?
3) Parou de consumir os itens da sua cesta de supérfluos?
4) Reduziu (ou pensou em reduzir no mês que vem) a sua cesta básica?
5) Percebeu que a sua renda não tem mais o mesmo poder de compra de um mês atrás?
6) Foi ao banco retirar um empréstimo pessoal e seu gerente negou o pedido (não vale se o motivo foi seu cadastro de inadimplência)?
7) Quis trocar o carro e o financiamento só pode ser feito em três vezes, com juros?
8) Planejou comprar um imóvel e descobriu que os recursos da Poupança e do FGTS não podem mais financiar o sonho da casa própria?
9) Foi ao supermercado e percebeu que o iogurte de frutas vermelhas (com bioactive ou lactobacilos vivos) simplesmente desapareceu das prateleiras?
10) O dinheiro das suas aplicações sumiu?
11) O presidente da República se referiu a você como “brasileiros e brasileiras”?
Se você respondeu “Não” a cinco ou mais perguntas, relaxa porque a tese “a economia mundial desabou”, por enquanto é MITO!!!!!
ECONOMIA REAL
- Caros leitores, não cedam a qualquer discurso que adote tons de chantagem emocional do tipo “vamos reduzir nossos lançamentos imobiliários por causa da escassez do crédito” , “só podemos financiar o carro em poucas parcelas”, ou “a alta do dólar vai ter que ser repassada para os preços de importados neste Natal”.
- Primeiro: ainda não há escassez de crédito no Brasil. O que algumas instituições já anunciaram é redução de prazos e elevação de juros. Mas crédito tem para quem quiser pagar o preço. Segundo: o comércio trabalha com estoques e, certamente, ainda não houve tempo para renová-los, embutindo os custos da valorização da moeda americana.
- Portanto, use a lei-mestra do mercado - a relação entre oferta e procura. Um produto encalhado na prateleira, precisa baixar de preço para sair de lá. O noticiário está repleto de informações sobre o verdadeiro impacto da crise no bolso do consumidor. Basta ficar atento e não ceder às incursões psicológicas que um momento de instabilidade pode provocar. Afinal, como disse sabiamente Baruch Spinoza, saber é a condição prévia da escolha!
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