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Três velinhas no bolo de botequim

Ana Cristina Cavalcante
09 Ago 2008 - 13h37min

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CENÁRIO

"São três velinhas brancas, minúsculas,
que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo.
E enquanto ela serve a Coca-Cola,
o pai risca o fósforo e acende as velas.
Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore
e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." *


A classe média brasileira voltou! Durante três longas décadas, os remediados tupiniquins passaram por processo de quase extinção. Desde os anos 70, época do chamado "milagre econômico", o Brasil não experimentava crescimento suficiente para expandir a faixa de cidadãos com poder de compra capaz de dar ares de economia bem-sucedida à Nação. No âmbito nacional, quem ganha entre R$ 1 mil e R$ 4,5 mil já forma grupo que corresponde a mais da metade da população economicamente ativa. No Ceará, a parcela já é de 37% e reflete a chegada, até nós, do mesmo movimento animador.

A revelação destes dados foi mesmo a grande notícia da semana. E a razão para o contentamento está menos nos números do que naquilo que representa. Uma classe média numerosa e em curva de alta tem significado poderoso: a economia vai bem, obrigado! Do ponto de vista técnico, quer dizer que a distância entre ricos e pobres diminuiu. Os institutos de pesquisa também apontaram o aumento no número de felizes representantes das classes A e B; e o encolhimento das camadas D e E, que incluem os pobres.

É verdade. Não se pode dizer que, "nunca antes na história deste país", a classe média foi tão forte. Ela foi. Nos tempos de Juscelino Kubitschek, o fortalecimento da indústria privilegiou essa camada da população em detrimento da economia do campo. Mais recentemente, o mesmo processo de industrialização, associado ao aumento desproporcional do tamanho do Estado, foi responsável pelo melhor momento dos remediados, no Brasil.

Era o tempo da ditadura militar, no qual o bem-estar econômico das famílias funcionou como cortina tanto para os horrores da tortura como para a grande lacuna no respeito às liberdades individuais. Mas é possível dizer, sim, que podemos comemorar a ascensão dos Cs - que ganharam renda e crédito amplo, fácil e muito caro. Os remediados são o motor do consumo que, por sua vez, é o combustível das economias estáveis e em expansão.


* Trecho de "A Última Crônica", de Fernando Sabino. O texto conta a história de pai e mãe que comemoram o aniversário de sua filha de três anos, com uma fatia de bolo e uma Coca-Cola, em botequim na Gávea. Isso, claro, antes de ascenderem da Classe D para a C.

Economia real

Pesquisar pra quê?

O presidente da Funcap - órgão do governo estadual responsável pelo fomento à pesquisa e desenvolvimento tecnológico, Tarcísio Pequeno (foto), tem a resposta para a pergunta: "Pesquisar para crescer". Segundo Pequeno, um caminho rápido e eficiente para alcançar o desenvolvimento é a inovação. "A inovação é um investimento de risco. Por outro lado, se dá certo, proporciona altíssimo retorno", define, remetendo à lei do mercado financeiro de quanto maior o risco, maior o ganho. O presidente da Funcap lembra que há uma nova estrutura de Ciência e Tecnologia da Informação (CT&I) pronta para mudar os rumos do Ceará. "Temos uma nova política, nova configuração e novo marco regulatório (a lei 14.016, de dezembro de 2007, responsável por instituir o Conselho Estadual de Tecnologia e Inovação - CEC-TI)", informou à Coluna, na última terça-feira. "É uma guinada crucial para a área porque deixa de ser um fim para tornar-se uma política de Estado, totalmente atrelada ao desenvolvimento", avalia Tarcísio Pequeno.

One world, one dream
O lema da abertura das Olimpíadas de Pequim remete para os efeitos que a globalização oferece, na contemporaneidade. O One world, one dream fala por si: todos unidos (?) em torno de objetivos comuns. A avalanche de chefes de Estado na festa de abertura revela pelo menos um desses interesses compartilhados: o mercado chinês! As possibilidades de comércio com o gigante asiático atraíram presidentes e primeiros-ministros de várias nações - desde as poderosas às emergentes. Lá estavam, George W. Bush, Nicolas Sarkosy e Luis Inácio Lula da Silva, além de monarcas como o príncipe espanhol, Felipe de Astúrias e a princesa Anne, da Inglaterra. A verdade é que estão todos de olho no negócio da China. Não é à toa. A imensa massa de 1,3 bilhão de consumidores; a indústria altamente competitiva, movimentada pela mão-de-obra baratíssima; o avanço da abertura do mercado... tudo isso faz do país-sede dos Jogos Olímpicos um verdadeiro paraíso econômico.

Pensamento econômico

"Se você quer um ano de prosperidade, cultive trigo. Se você quer 10 anos de prosperidade, cultive árvores. Se você quer 100 anos de prosperidade, cultive pessoas."

>> A propósito destes tempos olímpicos, vale o provérbio chinês. Quem sabe Hu Jintao, presidente da China, adota o bom hábito de cultivar pessoas livres.

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