Bolsa S/A
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O dia em que o Brasil fez quá-quá
Ana Cristina Cavalcante
02 Ago 2008 - 14h12min
CENÁRIO
"... O pato pateta
pintou o caneco
surrou a galinha
bateu no marreco
pulou do poleiro
no pé do cavalo
levou um coice
criou um galo...
...
Tantas fez o moço
Que foi prá panela..."*
Era 2001, em Doha - cidade do Qatar, país do Oriente Médio. As nações que compõem o mundo globalizado (sim, há países totalmente excluídos desse grupo!) estavam lá, decididas: iriam encontrar meios de conquistar a liberdade comercial. O objetivo central do grande pacto estava fechado: determinar as bases de um comércio internacional sem barreiras (ou quase) e, mais do que isso, justo. Na última semana, em outro continente - o europeu -, a suíça Genebra recebeu os líderes destes países. Foi cenário de um anúncio diferente do esperado, há sete anos. "Fracassamos", disse, na última quinta-feira, Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio - a outrora poderosíssima OMC .
A questão central de toda a discussão pode ser resumida em uma palavra: protecionismo. A divisão era clara, durante todo o processo: ricos, de um lado; pobres, do outro. Por ricos, entendam-se Estados Unidos e União Européia; por pobres, os emergentes que se reuniram em grupos como o G20 e o Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Os grandes usam, desde que a globalização é globalização, os subsídios para protegerem seus produtos (especialmente os agrícolas); seus interlocutores sempre lutaram para derrubar essa barreira praticamente intransponível e, ao mesmo tempo, manter fechados os acessos a seus mercados de bens e serviços. Aparentemente, o impasse é compreensível. Mas se havia expectativa de acordo, o que deu errado em Doha?
Sigam o raciocínio e formulem suas teses: o Brasil foi alçado ao posto de líder dos emergentes. Há alguns meses, o País desfrutava com desenvoltura desse status. Até o dia em que encantou-se com a proposta americana de redução dos subsídios. Alinhou-se com os grandes; feriu o brio de seus pares. A Argentina o acusou de traição; China, Índia e Austrália o desautorizaram a falar pelos emergentes. A Rússia... Deu de ombros, como sempre. Então, o Brasil é o grande culpado pelo colapso de Doha?
Seria muito cruel atribuir à nação verde-amarela toda a responsabilidade de uma negociação tão complicada quanto assimétrica. Seria mais uma megalomania nacional - tão comum nos últimos tempos, cá entre nós. No entanto, não se pode fugir de fatos. A diplomacia comercial brasileira deu vexame e conseguiu arranhar as relações com as duas pontas do processo - as nações ricas e os "quase ex-pobres", do bloco emergente. Não. O Brasil não foi o culpado pelo fracasso da rodada. Mas não há dúvida: ao pagar das luzes de Doha, fez quá-quá.
* Trecho da letra de O Pato, de Vinícius de Moraes, Toquinho e Paulo Soledade.
Pensamento Econômico
"A Rodada de Doha não deu em Doha nenhuma".
Manchete do Casseta e Planeta, do último dia 29, sobre o desenlace desastroso das negociações em Genebra.
Economia real
Por que a vida é agora
Convenhamos: o consumo empresta charme indefectível ao capitalismo. Como resistir à pressão de crédito ainda fácil, bancos e operadoras de cartões disputando o consumidor? Pelo menos, por aqui, não estamos sendo suficientemente heróicos. O Brasil foi o país que registrou o maior gasto comercial anual da região América Latina, com US$ 1,8 trilhão em 2007. O desempenho representa expansão de 20,4% sobre 2006. Os dados são da Visa, uma das gigantes do cartão crédito. A empresa divulgou, no final da semana, que o mundo gastou, no comércio, estratosféricas US$ 77,3 trilhões, em 2007. O valor é 12,2% a mais que em 2006. A União Européia representou a maior parte desse volume. Em seguida, aparecem Estados Unidos, Ásia/Pacífico, pela Europa Central/Leste Europeu/Oriente Médio/África, e, no fim da fila, América Latina/Caribe e Canadá. Só lembrando: os números são do CCE, índice financeiro criado pela Visa para mapear, globalmente, gastos de empresas e governos realizados com qualquer forma de pagamento.
Casa própria: ter ou não ter?
Olha aí o dilema hamletiano, de novo! O que, à primeira vista, parece ponto pacífico, pode ser motivo de dúvida. O advogado Edvaldo Barros (foto), presidente nacional da Abramutua, faz o alerta: a combinação financiamento ruim x brecha na lei pode fazer o sonho da casa própria virar pesadelo. Em entrevista à Coluna, Barros lembra que muitos mutuários ainda estão sofrendo com as distorções que o Sistema Financeiro Habitacional (SFH) impôs aos que se lançaram, sem medo, no universo da compra do imóvel. "As distorções acabam destruindo o sonho da casa própria, com paliativos como o FCVS - o fundo de compensação da variação salarial. Esse fundo acabou em 1986/80, mas a maioria dos contratos são pelo FCVS", alerta. O advogado afirma que a correção das prestações pela Poupança ou FGTS é ruim para o mutuário. "Alguns entendimentos tratam do reajuste pela capacidade de pagamento do mutuário", diz. Seria muito mais justo e evitaria prejuízos ao final dos contratos, com os resíduos do saldo devedor. Outra tese de Barros é evitar a Justiça Federal, nas ações. É mais rápido e eficiente e o caminho pode ser, como ele mesmo sugere, os juizados federais especiais. "Uma brecha permite que essas causas tenham um teto de até R$ 24 mil", insinua. Como? A resposta é segredo de advogado.
"... O pato pateta
pintou o caneco
surrou a galinha
bateu no marreco
pulou do poleiro
no pé do cavalo
levou um coice
criou um galo...
...
Tantas fez o moço
Que foi prá panela..."*
Era 2001, em Doha - cidade do Qatar, país do Oriente Médio. As nações que compõem o mundo globalizado (sim, há países totalmente excluídos desse grupo!) estavam lá, decididas: iriam encontrar meios de conquistar a liberdade comercial. O objetivo central do grande pacto estava fechado: determinar as bases de um comércio internacional sem barreiras (ou quase) e, mais do que isso, justo. Na última semana, em outro continente - o europeu -, a suíça Genebra recebeu os líderes destes países. Foi cenário de um anúncio diferente do esperado, há sete anos. "Fracassamos", disse, na última quinta-feira, Pascal Lamy, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio - a outrora poderosíssima OMC .
A questão central de toda a discussão pode ser resumida em uma palavra: protecionismo. A divisão era clara, durante todo o processo: ricos, de um lado; pobres, do outro. Por ricos, entendam-se Estados Unidos e União Européia; por pobres, os emergentes que se reuniram em grupos como o G20 e o Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). Os grandes usam, desde que a globalização é globalização, os subsídios para protegerem seus produtos (especialmente os agrícolas); seus interlocutores sempre lutaram para derrubar essa barreira praticamente intransponível e, ao mesmo tempo, manter fechados os acessos a seus mercados de bens e serviços. Aparentemente, o impasse é compreensível. Mas se havia expectativa de acordo, o que deu errado em Doha?
Sigam o raciocínio e formulem suas teses: o Brasil foi alçado ao posto de líder dos emergentes. Há alguns meses, o País desfrutava com desenvoltura desse status. Até o dia em que encantou-se com a proposta americana de redução dos subsídios. Alinhou-se com os grandes; feriu o brio de seus pares. A Argentina o acusou de traição; China, Índia e Austrália o desautorizaram a falar pelos emergentes. A Rússia... Deu de ombros, como sempre. Então, o Brasil é o grande culpado pelo colapso de Doha?
Seria muito cruel atribuir à nação verde-amarela toda a responsabilidade de uma negociação tão complicada quanto assimétrica. Seria mais uma megalomania nacional - tão comum nos últimos tempos, cá entre nós. No entanto, não se pode fugir de fatos. A diplomacia comercial brasileira deu vexame e conseguiu arranhar as relações com as duas pontas do processo - as nações ricas e os "quase ex-pobres", do bloco emergente. Não. O Brasil não foi o culpado pelo fracasso da rodada. Mas não há dúvida: ao pagar das luzes de Doha, fez quá-quá.
* Trecho da letra de O Pato, de Vinícius de Moraes, Toquinho e Paulo Soledade.
Pensamento Econômico
"A Rodada de Doha não deu em Doha nenhuma".
Manchete do Casseta e Planeta, do último dia 29, sobre o desenlace desastroso das negociações em Genebra.
Economia real
Por que a vida é agora
Convenhamos: o consumo empresta charme indefectível ao capitalismo. Como resistir à pressão de crédito ainda fácil, bancos e operadoras de cartões disputando o consumidor? Pelo menos, por aqui, não estamos sendo suficientemente heróicos. O Brasil foi o país que registrou o maior gasto comercial anual da região América Latina, com US$ 1,8 trilhão em 2007. O desempenho representa expansão de 20,4% sobre 2006. Os dados são da Visa, uma das gigantes do cartão crédito. A empresa divulgou, no final da semana, que o mundo gastou, no comércio, estratosféricas US$ 77,3 trilhões, em 2007. O valor é 12,2% a mais que em 2006. A União Européia representou a maior parte desse volume. Em seguida, aparecem Estados Unidos, Ásia/Pacífico, pela Europa Central/Leste Europeu/Oriente Médio/África, e, no fim da fila, América Latina/Caribe e Canadá. Só lembrando: os números são do CCE, índice financeiro criado pela Visa para mapear, globalmente, gastos de empresas e governos realizados com qualquer forma de pagamento.
Casa própria: ter ou não ter?
Olha aí o dilema hamletiano, de novo! O que, à primeira vista, parece ponto pacífico, pode ser motivo de dúvida. O advogado Edvaldo Barros (foto), presidente nacional da Abramutua, faz o alerta: a combinação financiamento ruim x brecha na lei pode fazer o sonho da casa própria virar pesadelo. Em entrevista à Coluna, Barros lembra que muitos mutuários ainda estão sofrendo com as distorções que o Sistema Financeiro Habitacional (SFH) impôs aos que se lançaram, sem medo, no universo da compra do imóvel. "As distorções acabam destruindo o sonho da casa própria, com paliativos como o FCVS - o fundo de compensação da variação salarial. Esse fundo acabou em 1986/80, mas a maioria dos contratos são pelo FCVS", alerta. O advogado afirma que a correção das prestações pela Poupança ou FGTS é ruim para o mutuário. "Alguns entendimentos tratam do reajuste pela capacidade de pagamento do mutuário", diz. Seria muito mais justo e evitaria prejuízos ao final dos contratos, com os resíduos do saldo devedor. Outra tese de Barros é evitar a Justiça Federal, nas ações. É mais rápido e eficiente e o caminho pode ser, como ele mesmo sugere, os juizados federais especiais. "Uma brecha permite que essas causas tenham um teto de até R$ 24 mil", insinua. Como? A resposta é segredo de advogado.
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