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Sobre a teoria do copo e a sorte do chicabom
Ana Cristina Cavalcante
03 Mai 2008 - 16h45min
CENÁRIO
Pergunte a qualquer brasileiro qual foi o fato da semana. Pelo menos, sete entre 10 dirão: o Brasil é investment grade. Mesmo não sabendo muito bem o que isso significa, todos perceberam que o fato é importante para o País. E, é! A decisão, por enquanto isolada, da Standard & Poor's - uma das mais influentes agências de classificação de risco (em economês, o rating) - atesta que o Brasil é um lugar seguro para receber investimentos, sejam eles direcionados ao mercado financeiro (leiam-se ações de empresas, fundos, títulos e aplicações em renda fixa) ou para a economia real - aquele setor que põe a mão na massa e faz a engrenagem funcionar de verdade.
Não é preciso forçar muito a memória para lembrar de uma época em que o mercado brasileiro era classificado como economicamente instável e digno de uma imensa desconfiança, aplacada apenas pelo argumento incontestável dos juros estratosféricos. Eram os tempos da vulnerabilidade - aquela montanha-russa acionada em velocidade máxima pelos movimentos do cenário externo. Lá (década de 80 e primeira metade dos anos 90), não havia segurança financeira; aqui (a partir da adoção do câmbio flutuante depois de 1999), a situação é exatamente oposta: aplique seu dinheiro no Brasil e não tenha medo de calote!
Como tudo tem três lados, há quem aponte dificuldades à vista. O título de grau de investimento pode contribuir para aprofundar os já preocupantes problemas de câmbio. "Vai facilitar o ingresso e o dólar vai mais para baixo. Temos problema de queda de exportação, aumento de importação, expansão de remessas. Agora estamos naquela fase dos efeitos colaterais dessa política de apreciação (do real). É uma coisa boa (o grau de investimento), mas para o Brasil é perigosa", afirma o Sidnei Nehme, diretor da NGO, corretora de câmbio com sede em São Paulo. Para Nehme, é certo: o copo está meio vazio. Mas o copo de outro analista de mercado está meio cheio: "No curto prazo gera euforia e, no médio prazo, a gente vai ter algumas fontes de recursos que não podiam investir em países que não eram investiment grade", atesta Vladmir Caramschi, economista-chefe da Fator Corretora.
Se o copo está meio cheio ou meio vazio, como propõe a tese do otimista contra o pessimista do ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, é uma questão de perspectiva. O fato é que o desempenho do País durante a crise das hipotecas de risco, gerada nos Estados Unidos e em pleno curso, tem sido um teste decisivo para comprovar a maturidade da economia brasileira. Não precisa sequer olhar para o copo. Mas o que está acima de qualquer análise de conjuntura é a sorte desta equipe econômica e do próprio presidente Lula. Afinal, a certificação do Brasil veio bem no dia em que a Petrobras aumentou o preço da gasolina e do diesel. É como dizia o genial Nelson Rodrigues, "Sem sorte você não chupa nem um chicabom, você pode engasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha."
ECONOMIA REAL
A política industrial
A indústria de base é importante para qualquer pretensão de desenvolvimento. Mas não é a única opção. Há caminhos capazes de representar transformações mais rápidas e efetivas. Para o coordenador da Rede Nacional de Agentes de Política Industrial (Renapi), Erasmo Gomes (foto), o País conta, hoje, com uma estrutura boa o suficiente para dar suporte a qualquer decisão que governo e empresários tomem. Trata-se da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e órgão central da Renapi. "Não compete à ABDI opinar sobre os rumos da política econômica nos estados. Mas é claro que a indústria de base não é o único caminho. Existem outros potenciais a serem explorados. No Ceará, pode-se citar as indústrias de alimento e cosméticos, além do setor de Tecnologia da Informação e o agronegócio. No caso dos cosméticos, o Estado já começa a mostrar sua pujança no cenário nacional. Em TI, apresenta dinamismo relevante. E no agronegócio, a exportação de flores mostra bem o que o Ceará pode oferecer", avalia Gomes. O fator determinante deste processo é, de fato, a integração entre setor produtivo e esferas governamentais. "Eu acho que há um tecido industrial bastante diversificado no Ceará. Tem peso entre os estados industrializados do Nordeste", afirmou. Gomes veio a Fortaleza para conduzir o 21º Seminário da Renapi, realizado pela primeira vez na Capital cearense. O evento acontece na última terça-feira, na Fiec.
Caixa Preta
O Brasil passou por um teste difícil e concorrido. Atingiu o investment grade e está credenciado por analistas internacionais a receber investimentos externos, sem oferecer risco de inadimplência. Como todo processo econômico, o desempenho dependeu não só da eficiência governamental - que, claro, foi decisiva. O funcionamento do mercado nacional também contribuiu imensamente. E, para chegar até aqui, foi necessário atingir dois estágios: o controle da inflação e a estabilidade da moeda. Mas afinal de contas, o que é investment> grade?
Investment grade > em português: grau de investimento. É uma classificação dada pelas agências de risco a títulos de empresas e países com baixíssimo risco de calote. No caso do Brasil, a Standard & Poor's avaliou critérios macroeconômicos e concedeu notas que colocaram o País nesta posição. Na prática, funciona como aval para instituições e investidores estrangeiros aplicarem seus recursos aqui. Do ponto de vista da economia real, a classificação pode atrair mais investimentos para o País. O que é um impulso para o funcionamento do mercado.
Pensamento Econômico
"Sorte é acreditar que você têm sorte."
- Ainda aproveitando o tema sorte, vale a frase do dramaturgo americano Tennessee Williams
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