Jorge Carls
26/01/2008 00:31

Quem me conhece sabe que gosto de beber, em qualquer situação e qualquer bebida, desde que seja boa — porém sem exageros na quantidade. Sempre procurando manter uma certa sobriedade, necessária ao completo aproveitamento dos prazeres da bebida, principalmente porque, na maioria das vezes, uma boa bebida está também envolvida com os prazeres de uma boa comida.
Assim, gosto de tomar um bom destilado como aperitivo numa refeição, que seja uma boa cachaça como a mineira Anísio Santiago (Havana, antigamente), um bom whisky single malt como o Cardhu, e o Glenfiddich ou mesmo um cognac XO como os excelentes Hennessy ou Remy Martin. E como digestivos, adoro degustar excelentes licores como o Chartreuse Verte preparado pelos monges cartuxos, um excelente Cointreau obrigatoriamente francês, um Mandarine Napoléon, preparado com laranjas, perfumado com tangerinas e cognac, ou um digestivo que aprendi a tomar na Itália, o indefectível Sambuca com mosca (grãos de café), flambado na hora no seu próprio álcool.
Mas o que mais me dá prazer são os vinhos, degustados normalmente durante as refeições, na temperatura correta e harmonizando-se perfeitamente com os pratos. Há uma infinidade de bons vinhos, das mais diversas procedências, porém, os que mais me dão prazer são os europeus em geral e os franceses em particular. Esta preferência talvez seja uma benéfica influência do grande chef Charles Dell’Eve, francês de origem e estilo que, durante muitos anos, chefiou a cozinha do Náutico, a qual, à época, pertencia ao meu pai. Foi quando iniciei-me nas bebidas, muito bem assessorado.
A França não é apenas a pátria da maioria dos mais finos vinhos do mundo. É também o mais excitante país produtor dos mais variados vinhos. A variedade de vinhos produzidos na França é de uma quantidade estonteante, todos com suas qualidades e especificidades. Não é nenhum exagero classificar a França como o melhor país vinícola do mundo, pois nenhum outro produz tantos vinhos de qualidade excepcional.
O desfrute de um bom vinho é um dos prazeres mais civilizados — e com certeza, os melhores vinhos do mundo procedem da França que, para mim, ainda é o centro da civilização moderna, não apenas nas belas-artes, mas principalmente nas prazerosas artes “menores” do bem beber e do bem comer.
Desde há muito tempo, o vinho francês é considerado o melhor vinho do mundo, embora, hoje em dia, com os avanços tecnológicos tanto no setor agrícola como no setor industrial, alguns vinhos produzidos em outros países, principalmente no Novo Mundo, possam ser tão bons quanto os franceses. Porém, nenhum deles é melhor do que os melhores franceses. Não há nenhuma razão isolada que explique a grandeza da França na produção de vinhos. Mas acho que é impossível encontrar outro país que reúna um conjunto de condições especiais de microclimas, solos, variedades de cepas e, tudo isto combinado com uma diversidade de processos e proposições, conduzindo a uma infindável variedade de vinhos de qualidade.
Os mistérios da vitivinicultura não podem ser reduzidos a estatísticas, do mesmo modo que um quadro não pode ser analisado pelo tamanho da tela, ou pelo tempo que levou para ser pintado, ou pela quantidade de tinta utilizada. Alguns dados estatísticos — números — são importantes e impressionantes: a França tem 2 mil anos de história na elaboração de vinhos, mais de 1,1 milhões de hectares plantados com vinhedos e produz cerca de 60 milhões de hectolitros de vinhos anuais. Esta quantidade varia, de acordo com as condições climáticas. Mas estes números dizem muita coisa.
Dá para perceber que sou um apaixonado pelos vinhos franceses. Na coluna da próxima semana vamos continuar com este assunto, enfocando alguns brancos e tintos que têm minha preferência para acompanhar boas comidas, principalmente os das regiões de Alsace, com seus famosos brancos e as de Bordeaux e Bourgogne, com seus inigualáveis tintos.
Levantemos um brinde com um bom vinho francês, desejando felicidades aos leitores e leitoras amigos, que todas as semanas têm paciência de aturar minhas idiossincrasias. Saúde!!! Saudações vínicas.