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Boa Mesa

BOA MESA

Vinhos e prazeres

Jorge Cals
23 Jun 2007 - 03h34min

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Grandes vinhos que têm que esperar anos para proporcionar o máximo prazer
Há certos tipos de vinhos tintos de grande qualidade, encorpados e com grande teor de tanino que são elaborados para que suas propriedades de boca e de nariz melhorem com o passar do tempo, depois de engarrafados, com seus aromas primários evoluindo para bouquets complexos, seus taninos se amaciando, alguns destes vinhos, chegando à sua plenitude até mesmo com mais de 20 anos. São vinhos que nos dão grandes prazeres quando degustados no tempo certo.

Há outros tipos de tintos, a maioria de qualidade inferior com cor carregada, sabor forte de frutas, cheio de aromas primários, teor alcoólico alto e baixo teor de taninos, sem capacidade de envelhecer, de melhorar com o tempo, elaborados para serem degustados no dia seguinte. Dentre estes vinhos tintos para serem bebidos jovens, temos que reconhecer a existência de exemplares de alto teor alcoólico, de cor e aroma intensos que são grandes vinhos e mesmo bebidos jovens nos dão imenso prazer.

Não sei se a pressa natural da vida moderna, a falta de conhecimentos vínicos, ou apenas uma moda hodierna lançada por novos produtores de vinho, interessados na rápida venda de seus produtos, para um faturamento imediato, o fato é que cada vez mais se consomem vinhos mais jovens, infelizmente atingindo até mesmo os que precisam envelhecer.

Como acontece no amor, em que o tempo e o desejo são predicados indispensáveis à obtenção de grandes satisfações, os grandes prazeres de um vinho não são obtidos com pressa, mas, como tudo na vida que é bom, somente depois de certo tempo de maturação.

Este procedimento de pressa é muito evidenciado entre os novos produtores de vinho, mormente os norte-americanos, que não têm memória nem passado vínicos e estão muito mais interessados no faturamento rápido em detrimento da qualidade; Por isso são apologistas dos vinhos consumidos jovens, a ponto de beberem logo um vinho apropriado para envelhecer com seus taninos adstringentes e desagradáveis, com a avidez e o prazer de quem toma uma coca-cola.

O que incomoda e preocupa é a contaminação dos enófilos em geral, os neófitos em particular, pelos costumes e conceitos desta avassaladora cultura "fast-food", que se apressam em produzir este ano para vender no próximo, consumir hoje os vinhos produzidos ontem, abrir à noite as garrafas compradas pela manhã, às vezes atingindo até o consumo de vinhos com potencial para envelhecer, repletos de taninos, cheios de adstringência e por isso mesmo, desagradáveis quando bebidos jovens.

Espero que a curta existência desta moda de consumo rápido de vinhos não tenha tempo nem força para acabar com a tradição de vários séculos no mundo dos vinhos que sempre apregoou o envelhecimento como ingrediente indispensável para que fossem melhoradas as qualidades íntimas dos grandes vinhos. Desejo que os enófilos leitores de nossa coluna tenham entendido a mensagem sobre vinhos novos e vinhos envelhecidos. Há bons vinhos para serem degustados jovens, mas para os grandes vinhos, como para tudo que é grande na vida, sempre é exigido tempo, numa repressão da pressa e exaltação da espera.

Um bom fim de semana aos nossos leitores, com bons vinhos jovens ou envelhecidos, contanto que sejam de boa qualidade e na época certa e na ocasião apropriada. Além disso, sempre com as indispensáveis boas companhias.

Saúde!!! Saudações vínicas.

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