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Atitude

ATITUDE

Consumidor? Que consumidor?

Adriano de Lavor


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17/03/2007 14:14

Na quarta-feira que passou, os jornais noticiavam o Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, que seria comemorado no dia seguinte. Com o texto na mão, armei coragem para ligar para a operadora de celular que faz o grande favor de me ter como cliente. É, amigo leitor. Não é assim que você se sente quando tem que resolver algo com estas recordistas em reclamação? Esse é um assunto sério, que só não vem acompanhado de aborrecimento nos comerciais de televisão. E é fácil comprovar: alguma vez você teve notícia de alguém que estivesse muito satisfeito com qualquer uma delas?

Mais difícil do que isso, só mesmo encontrar uma modelo que esteja satisfeita com seu próprio corpo. Mas é assim mesmo que o consumidor se sente diante deste grupo de empresas que, apesar de insistirem pertencer à área de comunicação, são somente um péssimo exemplo de comércio de má qualidade e de péssimo atendimento. Em primeiro lugar, são empresas etéreas, que não têm literalmente um espaço para onde você possa correr.

Para completar, são sádicas. Só deixam que você resolva seus problemas quando elas querem, através de um enganoso atendimento ao cliente, que se diz eletrônico embora não pareça nem elétrico. Ai de quem precisar contactar o tal atendimento: na maioria das vezes, tudo conspira para que você perca a paciência e desligue. E quantas pessoas são necessárias para que o imbecil reclamante desligue? Imagino a bolsa de apostas!

Mesmo assim, desconfio que não são humanas aquelas vozes que saem lá das tais centrais. Têm um sotaque terrível de quem nasceu numa sala de telemarketing e uma delicadeza comparável a das máquinas que distribuem tickets, na entrada dos shoppings. Autômatos não são dados a simpatias bobas, nem chegados à língua portuguesa. O único tempo verbal que conseguem conjugar é o gerúndio, mesmo quando você os manda praquele lugar.

Mas é bobagem sair do texto. Porque as vozes irão repetir incansavelmente somente o que querem dizer, tim tim por tim tim. Quase nunca vão lhe escutar. Já reparou quantas vezes elas perguntam com quem estão falando? Nem adianta ser vivo, ou levar na brincadeira! Atendentes devem ter uma vida muito estressante: irritam-se com facilidade e, a qualquer momento, ameaçam: "esta ligação está sendo gravada..." Ai de você se você retrucar: "pois eu quero que você me garanta tal serviço e que seja gravado!". É quase uma afronta! Afinal, quem manda no serviço? O inconveniente consumidor? Claro que não!

Na verdade, estas vozes nada humanas representam bem o nível de interesse dispensado pelas empresas de telefonia no Brasil à área de atendimento ao consumidor. Ele é próximo do zero, sem as raras e honrosas exceções. Numa análise administrativa, em qualquer país sério, o atendimento seria considerado fracasso de público e de crítica.

Mesmo assim, estas empresas fazem e acontecem no país. Devem ficar impunes pelas grandes somas que investem no mercado publicitário. E por isso tratam tão mal o público para o qual foram criadas (há quem acredite nisso). Difícil mesmo é ser obrigado a fazer parte do mundo de hoje sem depender delas. São tão eficientes as campanhas publicitárias, que a maioria das pessoas acredita não poder mais viver sem celular. Triste ilusão. Melhor ficar incomunicável do que depender de atendimento eletrônico desta gente teleguiada.


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Ranulfo Cardoso Jr.

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