Adriano de Lavor
10/02/2007 15:07
"As pessoas moralmente maduras são aqueles seres humanos que cresceram a ponto 'de precisar do desconhecido, de se sentirem incompletos sem uma certa anarquia em suas vidas', que aprenderam a 'amar a alteridade'". Em sua análise sobre o fenômeno da globalização, Zigmunt Bauman defende que a responsabilidade - "essa condição última e indispensável da moralidade nas relações humanas" - não encontra terreno fértil em ambientes onde as diferenças e a imprevisibilidade não sejam previstas e respeitadas.
Por isso mesmo, o sociólogo polonês acredita que as cidades contemporâneas estão mais associadas ao perigo, embora tenham sido erguidas em nome da segurança de seus habitantes. Para ele, esta falsa sensação de proteção dos riscos e perigos estaria sendo associada à "ausência de vizinhos com pensamentos, atitudes e aparência diferentes". Ou seja: em nome da segurança, estaríamos todos perdendo o convívio com as diferenças, o que nos deixaria confortavelmente livres da responsabilidade de contribuir para o bem coletivo.
Irresponsáveis moralmente, nós, habitantes das grandes cidades, estamos cada vez mais distantes das áreas públicas, do convívio em sociedade, buscando a harmonia ilusória em um mundo construído por "iguais". Daí se fortalecem a padronização estética - que exclui obesos e deficientes - a intolerância religiosa, os preconceitos raciais ou baseados na orientação sexual. O diferente representa o perigo e, como tal, deve ser combatido.
O outro lado desta moeda afeta a vida de todos, incluindo-se a elite que dá as cartas no mundo globalizado. Como ninguém é responsável pelo coletivo, a sociedade se protege em suas próprias ilhas de segurança, sem se importar com o que acontece nas ruas e nos gabinetes políticos, com as pautas que se discutem no Legislativo.
Nada diz respeito a ninguém. Por isso mesmo, tanto faz como tanto fez. Mas é aí que mora o perigo, nos adverte o teórico. "A uniformidade alimenta a conformidade e a outra face da conformidade é a intolerância". Iguais, conformados e intolerantes, os cidadãos deixam correr o barco de suas vidas sem perceber que, vítimas do medo, escondem-se de um inimigo que só se fortalece na sua ausência. Sem se responsabilizar pelo mundo ao redor, assistem à sua derrocada enquanto assistem a tudo pela TV, na sala de jantar.
Tira dúvidas
O Grupo de Apoio à Prevenção à Aids do Ceará (Gapa-CE) manterá, durante os dias de Carnaval, o funcionamento do Disque-Aids. O serviço, implementado no final dos anos 90, visa a tirar dúvidas sobre os riscos de transmissão do vírus HIV, as alternativas de tratamento, os direitos dos portadores e a prevenção durante a gravidez, entre outros assuntos. Interessados podem ligar para o número (85) 3252.1233 no horário comercial (de 8 às 12 horas e de 14 às 18 horas).
Vergonha nacional
Decididamente, vivemos uma crise de representatividade. Na sua estréia no Congresso, Clodovil Hernandez foi elogiado pelo "colega" Paulo Maluf, que acredita no poder polêmico de seu mandato. Por outro lado, o ex-estilista e pretenso apresentador já declarou que não vai se meter "neste negócio de fazer leis". Resta saber o que foi fazer lá, então. Francamente, nestas horas dá até vergonha de ser brasileiro!