Adriano de Lavôr
03/02/2007 14:23
A globalização produz a falsa sensação de que estamos diminuindo distâncias e rompendo fronteiras entre culturas. Em cartaz nos cinemas de todo o País, Babel, do diretor mexicano Alejandro González IÀáritu caminha na direção contrária, ao mostrar como o processo de internacionalização das tecnologias pouco contribui para que os indivíduos possam melhorar a sua convivência com as diferenças.
Elas se tornam gritantes nas três histórias conduzidas pelo diretor, ambientadas no universo de fronteira entre México e Estados Unidos, nas montanhas campesinas do Marrocos e na cibernética capital japonesa. As diferenças não são somente geográficas. As línguas desta Babel pós-moderna ainda se tornam mais distantes quando se colocam as inúmeras linguagens a que são submetidas - da tradição oral ao uso pesado das tecnologias de informação - e as situações diversas das personagens.
Tal qual o universo experimentado no Orkut, todas as vidas estão conectadas por frágeis fios de comunicação, que tecem, contrastantes, uma colcha de retalhos que não se combinam, embora ligados por atos ou fatalidades. Experimentar esta mistura heterogênea, feito água e óleo, é perceber o quanto ainda estamos ignorantes em relação ao outro e, por outro lado, como a soberba do mundo digital desconhece aquilo que ainda não está disponível na Internet.
Nem a profusão de recursos de acessibilidade consegue produzir pertencimento à adolescente surda japonesa - ao seu redor, somente as inseguranças se fazem ouvir, em um mundo de silêncios avesso às diferenças. No outro lado do globo, o casal de norte-americanos se perde entre as armadilhas que a tecnologia criou. Sem os artefatos tecnológicos de comunicação e localização, a empáfia imperial dá lugar à dor, à falta de cuidado.
Neste caso, são olhos que vêem e coração que sente, na pele, o que é viver na exclusão. Curiosamente, é longe de casa que eles experimentam aquilo que não enxergam em seu próprio quintal. É lá onde se desenrola outro conflito. Migrantes, discriminados e desrespeitados, os mexicanos que vivem na América são o retrato de uma população marginal, destituída de qualquer direito ou futuro. São apátridas virtuais, além de tudo. Estão fora de qualquer estatística digital. Sem nomes, sem rostos, sem direito ao passado ou ao presente. Simplesmente não existem.
É por isso que o filme mexe com aquele que se propõe a assisti-lo. Em nenhum momento, passa o desconforto; o desajuste se vivencia na platéia. Como na seqüência em que a teenager nipônica se entrega ao furtivo prazer das drogas sintéticas, o que se vive é o sentimento exato de vazio e solidão. Na Babel tecnológica de hoje, as distâncias só são curtas para aqueles poucos escolhidos que foram treinados a voar. O restante rasteja e se perde na profusão de línguas, linguagens e destinos. Bem longe dos céus, uma maioria silenciosa nem chega a ver o que há, logo ali na esquina.