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Atitude

ATITUDE

A modelo, o vídeo e poema

Adriano de Lavôr


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13/01/2007 15:14

O que significa a decisão da Justiça de impedir o acesso dos internautas brasileiros ao conteúdo de um dos sites mais visitados da última temporada? Logo vem à cabeça a lembrança do anacrônico fantasma da censura, nada adequado à realidade democrática que se pretende instaurar no País. No entanto, o episódio envolvendo a modelo que faz de tudo para parecer que não quer aparecer e o site you tube também cai como uma luva quando se quer refletir sobre um fenômeno que se observa hoje no cenário onde comunicação e novas tecnologias sustentam o ideal da globalização: a produção auto-referente de visibilidade.

A modelo e apresentadora - que não tem nada a declarar ao país, a não ser repetir a afirmação da própria imagem -, consegue mais uma vez mobilizar a atenção da grande mídia para a si mesma, utilizando-se de uma estratégia de auto-promoção simples. Munida de recursos administrativos de comunicação, orquestrados por uma equipe profissional de divulgação, a moça cria - através de releases, aparições calculadas e fotos produzidas - a personagem que instiga a curiosidade alheia para, no auge da exposição, reverter o processo e impedir a visibilidade daquilo que ela mesma criou. Aproveita, então, os espaços dados à própria exposição para reclamar da invasão de privacidade. Revela o privado, como se não o mostrasse, para que, ao requerer seu direito à privacidade, permaneça visível e pública.

Foi assim quando protagonizou a desastrosa cerimônia de casamento com o "Fenômeno", ambientada em Chantilly, na França. Seu comportamento extrapolou a festança "privada" e foi parar, magicamente, no horário nobre das TVs. Com tanto controle anunciado do que seria uma festa privada, ela praticamente convocou a imprensa, para que "criassem" algo de notícia.

Desta vez, a cena foi pública, mesmo, com direito aos extras. Nas tórridas cenas que protagonizou com o namorado em praias européias, ela ofereceu pacote completo de visibilidade. Belo cenário, robusta companhia, nudez calculada e, claro, sexo!

Um prato cheio para a internet, cenário sem leis e sem fronteiras para a exposição de intimidades, tão em moda nestes solitários novos tempos tecnológicos. Não demorou para que as cenas fossem editadas, copiadas, distribuídas, enfim, que trilhassem os rápidos caminhos que percorrem as informações numéricas do ambiente digital.

Depois de "disseminadas" as imagens, foi a hora da protagonista dar seu segundo passo, requerendo, por meios judiciais, a preservação da sua intimidade, tão cara quanto o seu cachê. Mais uma vez sorriu para as câmeras e flertou para os flashes para não dizer nada, a não ser, que não tinha nada a dizer.

Raros são estes tempos, onde a visibilidade é garantida aqueles que nada têm a exibir. Na verdade, é a época dos "apresentadores", um tipo de profissional que não precisa de mais nada, a não ser da própria imagem, esculpida profissionalmente assim como se constróem corpos em salas de cirurgia plástica.

Desconfio que esta moça odeia sua vida própria e se realiza em um desvario parecido com o de Ismália, a solitária musa de Alphonsus de Guimaraens, aquela que enxergava uma lua no céu, outra no mar, tão isolada que estava do mundo real. O que aqui chamo a atenção é que o comportamento da modelo - que me recuso a nomear, visto que em nada acrescenta - reflete o novo regime que rege a vida social na época em que vivemos.

A ênfase no consumo e na consumação dos desejos, como se fossem meras aquisições comerciais, faz com que muita gente imagine asas e se ponha a voar, - feito Ismália - rumo a um mundo virtual onde a imagem substitui a essência e a visibilidade se coloca como realização última. Os flashes, porém, são tão volúveis quanto areia ao sabor do vento. Mais dia, menos dia, se voltam para outra celebridade instantânea e desabam castelos construídos no ar. E aí, o final é parecido com o da personagem da poesia: "Sua alma subiu ao céu, seu corpo desceu ao mar...". E aí, caro leitor, nem you tube ressucita.


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