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Atitude

ATITUDE

Dias melhores virão!

Adriano de Lavôr


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03/01/2007 01:24


As uvas; a lentilha; a garrafa de champagne. São pessoais e intransferíveis os rituais humanos de passagem da noite de São Silvestre. Tem gente que se veste de branco dos pés à cabeça. Tem aqueles que guardam, por todo o ano seguinte, a cortiça que segura as deliciosas bolhas espumantes que acariciam o nariz, na hora da virada. Gente que reza, gente que chora, gente que se abraça.

E aí correm rápidos os minutos finais... Mais uma página virada, de novo a esperança no amanhã. Mas, como o ritual é uma construção individual - mistura de traços familiares e crenças desenvolvidas ao longo da vida -, tem até gente que não está nem aí para esta movimentação toda. Céticos, encaram a data como se fosse apenas mais uma barulhenta manifestação da ilusão humana. Será? O que seria de nós se não fossem os símbolos que nós mesmos criamos?

Entre fogos e afagos de reveillon, vale atentar para o que diz o filósofo Muniz Sodré, quando enxerga curiosa conexão entre afetos, mídia e a política - a arte de se situar, estar e viver em comunidade. Diz ele: "falar da vida como uma paixão é falar, filosoficamente, da vida como uma dinâmica em que se morre continuamente para deixar surgir o inesperado, ou o novo da existência". Ora, este abalo continuado de emoções é basicamente vivenciado através dos marcos que nós mesmos construímos em nossa passagem terrestre.

O ano do nascimento de cada um dos filhos, a data exata do início do namoro - que a maioria dos homens insiste em não lembrar -, a temporada vitoriosa que levou o time à conquista do campeonato - que a maioria das mulheres nem teve notícia -, o aniversário surpresa de um, a formatura de outro, a partida de um terceiro são marcos emocionais que capitulam a biografia de cada um dos indivíduos, como se os símbolos guardassem em seu seio o que havia de juvenil à época e significassem, por si, a mudança de ares.

Se não fossem os fogos, os banhos de mar - e suas protetoras sete ondas, de costas - as preces, os beijos e todas as "pessoalidades" repetidas a cada ano novo, quem seríamos nós? Enfim, se não fossem os afetos delimitados no espaço e no tempo, percorreríamos a trajetória da vida nos apoiando em dados oficiais, como se pesquisássemos sobre nós mesmos em empoeirados arquivos pra lá de mortos.

A vida se esconde nas emoções reveladas e contidas. A vida renasce e se desenvolve na partilha dos sentimentos, no compartilhamento da esperança de um novo tempo. Creio ser isso o que faz do dia 31 de dezembro uma data que mobiliza o humano e, por conseguinte, os afetos. É no tilintar das taças, no abraço fraterno e na renovação pessoal que se escondem as mudanças que tanto queremos enxergar e não vemos - porque não são físicas, concretas, contabilizadas pela razão.

As mudanças de ano novo acontecem de dentro para fora, e não o contrário. Parar de fumar, começar a malhar; voltar a estudar, trabalhar menos; divertir-se menos, responsabilizar-se mais; gastar menos, poupar mais... Seja qual for o seu desejo, a sua prece, a sua crença, o seu ritual ou a sua mania, acredite que o primeiro sol de 2007 irá potencializar isso dentro de você. Não são bobas as simbologias humanas, assim como não são desprezíveis as emoções. Se é o raciocínio que nos distingue como humanos, são nossos rituais que nos ensinam quem somos, como somos e o que queremos para o amanhã.

Que em 2007 possamos exercitar, sem medo e sem pressa, a verdadeira experiência de mudança. Dias melhores virão, caso consigamos enxergá-los, desde já. E se a uva, a lentilha, o champagne e as ondas ajudarem... Que mal pode haver? Feliz ano novo


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