Adriano de Lavor
23/12/2006 14:38
Depois de muita correria rumo às compras, de muitas confraternizações e revelações de amigos ocultos, finalmente o dia de Natal chega, trazendo consigo uma série de significações. Para alguns, é o momento de reencontro com a família que mora distante; para outros, a oportunidade de reacender a chama da esperança. Para muita gente, no entanto, 24 de dezembro não passa de mais um dia comum, que não modifica em nada suas vidas.
Falo isso porque o desinteresse que ronda as religiões estabelecidas, com seus ritos, preceitos e dogmas, é similar ao que se abate sobre a figura do estado, nestes tempos neoliberais. Sob a regência implacável do mercado e da virtualidade financeira, a espiritualidade também virou objeto de comércio, deixando de lado sua função primeira, que seria re-ligar o humano ao divino.
É perceptível, por outro lado, que a forma como se apresentam as crenças, neste século XXI, também contribuem para o aumento da distância entre o homem e o sagrado. Nos dias de hoje, diante das novas descobertas da ciência e da tecnologia, não há como exigir do homem urbano que se entregue aos rituais como antes se fazia. Há algo de tão anacrônico em certas práticas e crenças, que dispensam, por si, qualquer comentário - ou adesão.
Além disso, nunca as religiões foram tão humanas, no sentido que aqueles que as dirigem não mais se encontram sob a proteção do poder que, antes, lhes era conferido. Em todas as crenças há aqueles que são mal intencionados. E a democratização das informações mostrou que são todos iguais perante a lei - pelo menos a dos homens.
Se há crise nas religiões, não se pode dizer o mesmo da busca humana pelo transcendental, por explicações que desvendem o sentido da vida e daquilo que existe - se é que existe - quando esta acaba. Enquanto no homem restarem dúvidas sobre tudo isso, ainda restará espaço, em sua vida, para os caminhos da fé.
O que chama a atenção, neste contexto - e aí a época do Natal é fértil de exemplos - é a comercialização de algo que é tão humano quanto o próprio homem. Daí o desinteresse de tanta gente. Daí o esvaziamento dos templos, igrejas, mesquitas ou sinagogas. Assim como o estado delegou à iniciativa privada aquilo que deveria prover aos seus cidadãos - saúde, educação, moradia, emprego e tantas outras necessidades - as religiões disputam, hoje, com o mercado as prerrogativas da fé.
Basta entrar em qualquer shopping para comprovar. Buda e Maomé dividem as prateleiras com a mesma desenvoltura que terços, kipás e guias do candomblé colorem desfiles de moda. O comércio se apropriou de símbolos sagrados e os colocou à venda, como se fossem fantasias dissociadas da tradição - antes repassava de geração a geração.
É este o desafio que se coloca às religiões neste século. Recuperar o tempo, a credibilidade e os fiéis perdidos, sob o risco de uma vertiginosa pulverização da espiritualidade e da ritualização crescente do mercado da fé.