Adriano de Lavor
16/12/2006 16:28
O Natal saiu das casas e foi absorvido pelo mercado, como muitas das manifestações populares. As luzes coloridas que adornavam jardins e fachadas residenciais migraram, padronizadas, para toda a cadeia produtiva de comércio, graças a outro ritmo da época das festas. Até o tempo corre diferente: basta novembro começar e já começam a se espalhar as luzes, as ofertas e as dívidas do consumidor.
A globalização padronizou o que antes era familiar: não mais se valoriza o espírito de confraternização, mas sim a chegada de mais um feriado e a troca exaustiva de presentes; os sabores também já não são os mesmos. A exigência pela praticidade exige que o paladar se acostume à mesa plastificada do que se coloca à venda. Antes, iguarias; hoje, um amontoado de especiarias iguais.
Por isso mesmo, levam vantagem, neste momento, aqueles que foram acostumados a celebrar em família o nascimento de Cristo, um revolucionário que iria odiar toda essa maratona comercial. Assim como Che Guevara - desconfio - queimaria todas as camisetas que contabilizam a sua imagem - o aniversariante do próximo domingo talvez não controlasse a ira divina, ao presenciar o comércio que se faz em seu nome, as promessas avalizadas através do seu discurso e as injustiças praticadas às custas da distorção do que ele pregou.
Por que se o objetivo disso tudo é a comemoração de seu aniversário, querido leitor, daqui a pouco ele vai estar é de costas esperando que essa época confusa e cansativa passe. E bem longe dele. Na verdade, temo que os presépios se transformem em meros bibelôs. As crenças e práticas pessoais, localizadas, não interessam ao mercado. Não estranhe o leitor se daqui a algumas décadas não se pensar, coletivamente, que 25 de dezembro é o aniversário de Papai Noel.
Nesta época do ano, e isso é fato comprovado, as agências dos Correios ficam abarrotadas de cartas destinadas ao velhinho bordô. São crianças e adolescentes pedindo de tudo. São próteses diversas, sejam elas físicas, emocionais, sociais ou econômicas. Gente que precisa de muletas para andar, material pra estudar, roupa pra vestir, vaga pra trabalhar, teto para dormir. Irônico, se não fosse trágico.
Até Papai Noel tem mais credibilidade que o Estado! O que não se compra, não se tem! E quem é que hoje se dá ao luxo de investir na vida eterna? Vida para viver. É, na verdade, o que todo mundo adoraria ganhar. A vida virou um detalhe esquecido e amarrotado nas prateleiras. Pode ser afortunada, custar R$ 1,99 ou não valer nada, depois de um tiro no sinal. O que aí se apresenta como Natal, em nada faz lembrar o que ele tem de mais importante: a renovação da esperança, a possibilidade de mudança, a simbologia fraterna da solidariedade e igualdade de condição para todas as nuances humanas, em sua completude.
Então eu venho aqui para lembrar. Compre menos e acolha mais, neste Natal. O seu coração estará muito mais completo. E o aniversariante, esteja onde estiver, vai fazer um brinde a você. Tim tim!
10 anos no plural
Há 10 anos eu ganhei um presente de Natal. Eram tempos já iluminados na Praça Portugal, quando Sonia Pinheiro me convidou a estrear neste espaço, cujos traços muito carregam dos meus. Aqui nasceu e amadureceu um projeto de atitude, idéia e teclados juntos em defesa da cidadania e da indiscutível liberdade humana. Foi aqui, no People, que Atitude tomou corpo, ultrapassou as páginas do jornal e se tornou a minha marca profissional. Não sei se outro espaço estaria tão aberto a um conjunto tão plural de idéias, sonhos e poesias. Que esta pluralidade saudável possa contagiar o mundo. Paz, amor e igualdade social só são possíveis quando as diferenças se complementam. E, quanto a isso, People continua imbatível. Por isso mesmo, estes 10 anos valem muito mais. Parabéns!!!