Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Atitude

ATITUDE

Lembranças, pétalas e notas

Adriano de Lavor


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

13/12/2006 03:02

Eu hoje aprendi a cultivar lembranças. Carregar comigo estes fragmentos de memória como se fossem pétalas em perfume - aquele que exala, naturalmente, do corpo da pessoa amada; como se fossem - e são - essenciais, tipo os últimos acordes de piano que encerram uma sinfonia. Música e perfume são mensageiros que trazem notícias de Mnemósine nestes tempos tecnológicos.

Pois não há como driblar a deusa grega da memória - aquela que trouxe ao mundo dos mortais as nove musas - quando tratamos de aromas e notas musicais. Sutis e inalterados pelo tempo, música e perfume são cirúrgicos quando querem nos trazer de volta o passado ou nos levar para uma volta aos dias, às noites ou às décadas que já vivemos.

Basta cruzar com aquele cheiro. E aí tem que imaginar "cheiro" como uma fragrância personalizada. Não são somente notas cítricas, doces ou amadeiradas. Danem-se os rótulos. Tanto faz! É muito mais próximo do aroma que exala uma situação, da pulsação que desperta o olfato. É reconhecer o hálito e não confundir o sorriso, mesmo quando há muito não se ouve a voz. Pois é. Basta cruzar. E lembrar. O coração e a saudade "enxergam" odores e extraem, dos perfumes, adormecidas imagens do passado.

Quando tratamos com música, ainda é mais certeiro o tiro que se dá na memória. Soam as primeiras notas e os pêlos crescem, empertigam-se, como se tivessem acabado de deslizar pela tela eletrificada de um monitor. Descarga tátil causada por um despertar sonoro. Recebimento, reconhecimento, reação. Inevitável reconstituir as cenas, reeditar os diálogos, acrescer detalhes e cores quando "aquela" música toca. É possível que as lágrimas empurrem-se rumo ao mundo ou a alegria repentina se espalhe feito uma gostosa gargalhada de bebê. Tudo pode acontecer, excetuando-se o "nada".

É que estes recursos antigos da natureza humana - os aromas e os ritmos - ainda movem os desejos humanos como nenhum artefato tecnológico ousa ainda tentar. Mnemósine, a deusa da memória, sabe bem com quem se acompanhar. Mesmo que a bateria da câmera (ou da filmadora) falhe, o fotógrafo não apareça, o celular mande sua agenda para o espaço ou todos os arquivos desapareçam do seu HD, de uma hora para outra, felizmente ainda nos restarão as lembranças olfativas e o doce cantarolar das memórias. E o melhor: tudo pode. Inclusive, suspirar! Ai, ai!


Para escutar o que digo
Marisa Monte sabe do que estou falando. Confira Universo Particular. Se estiver em Fortaleza, aproveite: em janeiro a musa leva o show ao Siará Hall. Dias 5 e 6 de janeiro. Vale não confiar somente na memória e agendar.


O céu das origens
O filme estreou no Festival de Veneza este ano. Na Premiére Brasil do Festival do Rio, colecionou prêmios de melhor filme, melhor diretor e melhor atriz para Hermila Guedes. O Céu de Suely, segundo longa de Karim Aãnouz, é poesia árida do sertão que vai ao cinema. Um árido movie, rodado em Iguatu - terra dos meus genes maternos - que retrata um meio de mundo localizado em qualquer lugar. É insatisfação, inadequação, forró, beira de estrada e posto de gasolina. Tudo remendado e rodeado por poesia. Imperdível. Saiba +: www.oceudesuely.com.br


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato